ANDERSON HERNANDES – Palestrante e Escritor de Marketing

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CAPÍTULO 18 – É preciso ter capacidade empreendedora

PARTE 2

O PERFIL E AS HABILIDADES
DOS PROFISSIONAIS
EMPRESÁRIOS

INTRODUÇÃO

Separei essa parte final do livro para tratar das qualificações dos profissionais empreendedores, donos dos seus próprios negócios ou aqueles profissionais prestadores de serviços autônomos. A cada dia que passa, tem-se aumentado às possibilidades para essa modalidade de trabalho, uma vez que as relações de emprego estão cada vez mais em baixa. O mercado não tem e provavelmente nunca terá condições de absorver toda a massa de trabalhadores sem emprego, incluindo os novos que ingressam no mercado de trabalho, abrindo assim as portas para os profissionais empreendedores.
Mas ser um empresário não é algo tão simples como pode parecer. A visão de que empresários ganham muito dinheiro, trabalham poucas horas por dia e tem férias inesquecíveis em apenas ilusão. Mas ser empresário pode ainda ser o melhor caminho para ser bem sucedido profissionalmente, por isso é importante que você pense nisso.
Portanto, vamos discorrer um pouco sobre isso.

Capítulo 18

É PRECISO TER CAPACIDADE EMPREENDEDORA

É preciso compreender, ainda que possa parecer óbvio, que ser um empresário é muito, muito, mas muito diferente de ser empregado. Apesar de óbvio, o que tenho observado é que muitos profissionais, antes empregados nas empresas, tiveram de tornar-se empresários por diversos fatores, como se recolocar no mercado de trabalho, prestar serviços terceirizados onde anteriormente eram funcionários, complementação de aposentadoria e outros.
Na verdade não estavam preparados para serem empresários, isso porque não dispunham de qualificação ou capacidade administrativa para dirigirem os seus negócios.
O que ocorre é que para ser empresário precisa-se o mínimo de conhecimento sobre como se administrar uma empresa, lidando adequadamente com assuntos como fluxo de caixa, custos de produtos e serviços, impostos, marketing e fidelização de clientes.
Não quero dizer que todo profissional empresário deve ser um expert nesses assuntos, mas deve, no mínimo, conhecer e saber utilizar as ferramentas administrativas para melhor liderar seu negócio.
Diante disso, cabe ao profissional empresário obter também qualificação administrativa e gerencial. Não basta ser um bom médico e achar que isso será garantia de sucesso ao médico empresário. O mesmo serve para engenheiros, dentistas, advogados, contadores e todos os outros. Listei a seguir algumas das principais falhas cometidas por profissionais empresários:
•    Desconhecem como administrar adequadamente os recursos humanos da sua empresa;
•    Não realizam um planejamento tributário periódico;
•    Não há separação do dinheiro da empresa do dinheiro dos sócios;
•    Desconhecem como planejar, elaborar e controlar adequadamente um fluxo de caixa;
•    Gastam mais do que a capacidade financeira permite;
•    Não investem em marketing;
•    Não possuem estratégias de fidelização de clientes;
•    Não possuem programas de motivação de colaboradores;
•    São workaholics (pessoas que trabalham compulsivamente);
•    Não contratam os melhores profissionais para o auxiliarem;
•    São excelentes profissionais na área técnica que atuam, mas, péssimos administradores;
•    Desconhecem o mínimo necessário sobre legislação empresarial;
•    Não sabem custear seus produtos e serviços;
•    Utilizam tecnologia ultrapassada;
•    Contratam parentes despreparados para auxilia-los;
•    Contraem dívidas acima da capacidade de pagamento;
•    Não fazem uma análise de mercado antes de iniciar o negócio.

E assim vai. Não é possível discorrer sobre todas as características administrativas necessárias para ser bem sucedido nos negócios como empresário, visto que este não é o objetivo desse livro. Você poderá obter maiores informações sobre isso consultando outro livro, escrito especificamente sobre o assunto conforme descrito na bibliografia desse livro. Porém, espero que tenha ficado claro que a capacitação administrativa é fundamental.

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Profissional de Sucesso - 2004
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Introdução

Livro adoção

por Anderson Hernandes Batista

A vida de um pai adotivo

A adoção de uma criança pelo ponto de vista de um pai

1ª Edição



AGRADECIMENTOS

Não poderia deixar de agradecer primeiramente aos meus dois maravilhosos filhos que foram a inspiração para escrever esse livro.

Agradeço a minha esposa e companheira Ana que há doze anos está ao meu lado e que me ajudou a construir uma família tão linda.

A minha mãe e meus irmãos que amo demais e que participaram sempre dos nossos momentos felizes com nossos filhos.

Ao meu pai que nos deixou em 2004, mas que teve um enorme significado na minha vida e que infelizmente não pôde conhecer seus netos.

POEMA: “ANTES DE SER PAI”

Antes de ser pai eu dormia a noite inteira e nem sabia o quanto isso é tão importante.
Antes de ser pai eu não pisava nos brinquedos espalhados pela casa e tinha ciúmes das minhas coisas.
Antes de ser pai eu desfrutava do happy-hour no fim da tarde após um dia inteiro de trabalho.
Antes de ser pai eu raras vezes ia ao médico na calada da noite.
Antes de ser pai eu podia comer sempre que tinha fome,
Antes de ser pai eu nem conhecia uma história infantil.
Antes de ser pai eu não sabia que existiam backyardigans, Lasytown e Barney.
Antes de ser pai eu olhava os filhos dos outros e pensava como eles podem ser tão mal educados.
Antes de ser pai eu não imaginava que uma criança poderia ser tão inteligente e nem tampouco que elas pudessem ter sentimentos.
Antes de ser pai eu nunca imaginei que uma criança poderia me amar tanto apesar de todos meus defeitos como pai.
Antes de ser pai eu não sabia que alguém tão pequenino poderia trazer uma felicidade tão grande.

Anderson Hernandes

INTRODUÇÃO

Sempre pensei que poderia ajudar as pessoas a conhecer melhor os desafios e alegrias de adotar uma criança através do ponto de vista daquele que enfrentou muitos desafios para alcançar esse objetivo.
Assim, este livro faz parte de um projeto pessoal que visa através da minha própria experiência, informar e incentivar a adoção de crianças. Nele compartilho as alegrias e os desafios que tive nos últimos anos com a adoção de meus dois filhos.
Tenho dois filhos adotivos, um casal que hoje tem três e quatro anos respectivamente. A diferença de idade entre eles é de apenas sete meses, por isso consideramos o trabalho de criação deles é como o de criar irmãos gêmeos.
Apesar de nossos dois filhos não terem nenhum parentesco entre eles, pois vieram de pais biológicos diferentes, eles se parecem muito fisicamente, pois tem o mesmo tom de pele, cor de cabelo, altura, e são muito unidos.
No entanto, a personalidade deles é bem diferente e temos de educá-los de forma personalizada para atender as necessidades individuais de cada um.
Inúmeros casais sofrem com a impossibilidade de conceber um filho biológico, mas desconhecem como adotar uma criança ou tem medo de adotarem uma criança pensando que não terão os mesmos sentimentos que desenvolvemos por um filho biológico. Assim espero que por compartilhar as alegrias desses momentos tão maravilhosos que tenho passado com meus filhos possa auxiliar casais a tomarem a mesma decisão que tomamos e assim derivar da mesma alegria.
Para mim, dizer que adotei meus filhos seria uma injustiça com eles por todas as alegrias que eles me dão, portanto costumo dizer que eu é que fui adotado como pai, por isso o nome escolhido para esse livro.
Assim, espero que apreciem minha experiência e alegria, pois ela é apenas mais uma de milhares de pais que um dia tiveram a oportunidade de serem adotados por seus filhos.

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O Pai Adotivo - 2008
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CAPÍTULO 1 – Minha Infância

And_siteMINHA INFÂNCIA

“A base de toda pessoa acontece na infância. Assim, por dedicarmos nosso tempo e esforço estaremos dando o melhor o futuro dele.”

Anderson Hernandes

Sou o irmão do meio de uma família de três irmãos, na qual nossa diferença de idade é de sete e nove anos respectivamente. Eu e meus irmãos tivemos uma infância normal, cheia de expectativas e uma criação e educação maravilhosa dos nossos pais.
Nunca tenhamos tido acesso a luxos que outras crianças tiveram, apesar de não nos faltar nada meu pai sempre economizava muito e isso refletia no entretenimento que tínhamos acesso, como vídeo game, bicicleta e outros.
Da minha infância me lembro muitos detalhes, até coisas que para nossos filhos hoje são coisas comuns, mas que me marcaram. Lembro-me, por exemplo, quando ganhei meu primeiro brinquedo que considerava realmente maravilhoso. Era uma caixa de Playmobil com 11 bonequinhos. Fiquei durante meses maravilhado com aquele brinquedo.
Lembro-me, também, da primeira vez que meu pai nos levou no Mc Donalds. Foi um acontecimento, tinha cerca de 10 anos e passei semanas programando aquele dia. Até aquele momento da minha vida eu nunca tinha ido lá, pois nosso pai não costumava sair para comer fora como é tão comum para nós hoje, até que um dia ele disse que nos levaria e levou. Até hoje me lembro com detalhes deste dia.
Meu pai sempre foi um exemplo para nós em muitos aspectos. O que mais vem a nossa mente é o fato de que sempre foi muito trabalhador e desde muito pequeno me encaminhou para começar a trabalhar. Ele dizia que o jovem tinha de começar a trabalhar bem cedo para ter responsabilidades e isso de certo modo me ajudou a ser muito precoce na vida. Aos 12 anos já realizava trabalhos informais e aos 14 anos já era registrado numa empresa como Office-boy.
A minha mãe, por outro lado, teve um papel fundamental na criação da nossa família, uma vez que ela passava a maior parte do tempo cuidando de mim e dos meus irmãos. Nossos valores e princípios foram bem moldados em conformidade com a educação recebida dela.
Sempre freqüentei favelas perto de casa e tinha alguns colegas que moravam nesses lugares, assim nunca tive problemas em estar em tais locais. Com isso, tive acesso a muitas famílias pobres que criavam seus filhos de forma muito precária e já naquela época tinha muita dó daquelas crianças.
Em 2004 nosso pai nos deixou vítima de um atropelamento. Hoje, enquanto estou escrevendo esse capítulo do livro está fazendo quatro anos que papai se foi e ainda sentimos muito a falta dele. Sinto muito também o fato de ele não ter tido a oportunidade de conhecer meus filhos uma vez que ele acompanhou nossa luta e espera para adotá-los. Nosso segundo filho nasceu antes de papai nos deixar, mas como só o adotamos anos depois ele nunca o conheceu.
Não tem como desconsiderar que aquilo que passamos na infância tenha um papel fundamental na nossa vida toda, por isso dou muito valor a infância dos meus filhos, pois isso será a base do futuro deles. Muito se fala sobre dar aos filhos a melhor educação por colocá-los nas melhores escolas, mas nada substitui o tempo que dedicamos a eles e o quanto conversamos com eles, assim, temos de dar nosso melhor nesse respeito.

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CAPÍTULO 2 – Sonho de ter um filho

Eu e minha esposa

Eu e minha esposa

SONHO DE TER UM FILHO

Casei-me muito cedo, aos vinte anos de idade assim como quase tudo na minha vida foi muito precoce. Para muitas pessoas, casar cedo demais é um dos fatores que levam a  infelicidade no casamento, pois como o casal tem pouca experiência na vida, às dificuldades surgem e o casal tem maiores dificuldades de enfrentá-las. Mas este não foi nosso caso, até porque sempre apreciei compromissos e responsabilidades e tinha uma vida de casado normal, repleta de alegrias e bons momentos e de algumas dificuldades como qualquer outro casal normal tem.

Após alguns anos de casado, passamos a pensar na possibilidade de termos um filho. Como já tínhamos feito muitas coisas sozinhos, pensamos que faltava companhia e decidimos ela iria engravidar. Assim, interrompemos os meios contraceptivos que minha esposa usava e aguardamos que ela ficasse grávida. Ouvimos relatos que os efeitos do anticoncepcional pudessem durar vários meses, deste modo, mesmo depois de um ano, não estávamos alarmados com o fato de minha esposa não engravidar. Mas, passou-se muito mais tempo e a tão sonhada gravidez não veio e passamos a ficar muito apreensivos com a situação.

Depois de algum tempo, minha esposa passou a buscar explicações dos impedimentos da gravidez e assim realizou diversos exames para investigar as causas. Nenhum exame que ela realizou foi concludente para apontar os verdadeiros motivos e tomei a decisão que eu iniciaria a investigação.

Depois de realizar um exame descobri que tinha um problema nos meus espermatozóides que impediriam a fecundação. O médico indicou seria revertido com medicamentos e me prescreveu remédios e algumas recomendações. Mas o tempo foi passando e o resultado não veio a assim buscamos outros especialistas.

Toda vez que procurávamos outro especialista tínhamos de repetir alguns exames e isso tornava ainda mais moroso o tratamento. Uma coisa que ficou bem clara era que o problema estava em mim e tratar problemas de infertilidade no homem é muito mais difícil do que na mulher, pois os remédios disponíveis, muitas vezes a base de hormônio nem sempre dão resultados esperados.

Um erro inicial e muito comum entre pessoas que buscam tratamento sobre infertilidade é procurar médicos que não são especialistas em fertilização humana. Isso ocorreu até que um dia a minha esposa leu um livro de um dos maiores especialistas em reprodução humana do Brasil. Buscando a solução do problema entramos em contato com seu consultório e marcamos uma consulta com esse especialista. Esse profissional, muito atencioso por sinal, pediu novos exames e trinta dias após tínhamos o resultado dos exames e retornamos para uma nova consulta. Depois de ele avaliar os resultados ele nos deu uma noticia difícil, a de que nossas chances de minha esposa engravidar, mesmo pelas vias assistidas eram menores de 5%. Naquele momento caiu o mundo sobre nossa cabeça, saímos de lá arrasados e não conseguíamos entender como podia acontecer isso conosco, pois parecia que tínhamos uma vida muito feliz, apenas sentíamos que faltava a presença de um filho.

Como todos os outros médicos nos deram uma visão diferente da desse médico ficamos muito chocados com aquele diagnóstico, achando que ele estava errado, mas as explicações dele foram muito convincentes.

Lembro-me de diversas vezes de noite acordar sozinho e chorar na beira da cama devido à impossibilidade de ter um filho e ainda ser o responsável pelo problema. Essa decepção até desencadeou uma doença psicossomática na minha pele na qual passei por muitos meses tratando.

De modo similar, minha esposa também passou por um período difícil, ficou muito triste e quase entrou em depressão. Numa de nossas conversas sobre o assunto levantei a hipótese de pensarmos na adoção, mas ela simplesmente se revoltou com minha indicação. Seria como se eu tivesse proposto para que cometêssemos um crime juntos. Entendo como deve ser difícil para uma mulher não poder gerar um filho, bem como amamentar. A palavra filho está diretamente ligada à gravidez e não a criação dos filhos. Até mesmo os comerciais de TV sempre enfocam uma mãe amamentando, pois é isso que nos relembra a relação de pais e filhos. Diante disso compreendo como é que uma mulher se sente numa situação como essa.

Depois de algum tempo, um dia, a minha esposa acordou e disse: Vamos dar entrada nos papéis para a adoção. Bem, fiquei surpreso, pois fazia muito tempo que não falávamos no assunto, mas como a minha opção era pela adoção não hesitei e fui atrás dos procedimentos para o cadastro.

Antes de compartilhar como foi nosso processo de adoção vou comentar um pouco sobre a adoção no Brasil.

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CAPÍTULO 3 – A adoção no Brasil

quadroadocaoA ADOÇÃO NO BRASIL

Aqueles que decidiram um dia adotar uma criança sabem que o processo de adoção não é uma tarefa nada fácil. São diversos documentos além de entrevistas e atestados médicos. Isso serve para selecionar candidatos capazes de suprir as necessidades de crianças cuja realidade, na maioria das vezes é bem diferente daquelas que são criadas por pais biológicos responsáveis.
Quando uma criança é disponibilizada para adoção, normalmente essa criança passou por diferentes fases que marcam a sua vida, independentemente de ela ser recém nascida ou não. Afinal por que estaria disponível para adoção se não fosse por problemas que ela tenha passado na sua vida? Portanto, abandono, rejeição, maus-tratos, violência doméstica, fome, agressão moral e violência sexual são algumas das coisas que ocorrem com essas crianças. Quando finalmente o poder público consegue retirar essas crianças dos seus lares, normalmente elas são entregues a instituições ou abrigos de menores, com o objetivo que fiquem por pouco tempo lá, aguardando até que sejam encaminhados para novas famílias que passaram pelo processo de cadastramento e aprovação do Fórum.
Os maus-tratos a essas crianças incluem dezenas de tratos absurdos para nós seres humanos normais compreendermos. Muitas crianças são vitimas de abusos físicos, verbais e sexuais. Os abusos físicos incluem agressões e torturas como queimar os filhos com cigarros, apertar dedos com alicates, espancamento e muito mais. Muitas crianças são mantidas em cárcere privado, por serem acorrentadas ou amarradas dentro de casa ou simplesmente deixadas sozinhas sem qualquer supervisão. Outras muito pequeninas vêem seus genitores manterem relações sexuais ou até mesmo são vitimas de abuso sexual por pais, padastros ou outros familiares.
Além disso, existem aquelas que são abandonadas em abrigos ou até mesmo sobreviveram a tentativa de assassinato de seus próprios pais.
As pessoas ficam horrorizadas quando algo assim é veiculado pela mídia, mas tais acontecimentos são muito mais comuns do que se imaginam. Basta uma olhada nos abrigos de crianças para encontrarmos outra realidade que inclui dezenas de crianças em tais situações. O mínimo que encontramos em tais abrigos são crianças que foram vitimas de abusos emocionais. Tais pais biológicos não têm a mínima noção de quão danoso é submeter crianças tão pequenas a tais abusos, muitas vezes comprometendo toda a vida delas. É por isso, muitas delas precisam de acompanhamento psicológico por longo período após a adoção.
O Brasil é um país em que existem grandes diferenças sociais. Assim, surgem famílias que tem padrão de vida bem abaixo da linha da pobreza. Simplesmente algumas crianças não têm o que comer. A baixa escolaridade aliada à pobreza que muitas famílias vivem simplesmente fez com que surgissem pais desinteressados ou sem condições para criar seus filhos. Assim, é comum vermos filhos que simplesmente vivem nas ruas ou tem pouca atenção e cuidados de suas famílias.
O Estado tem a obrigação social de cuidar das crianças e adolescentes, pois isso é garantido por lei. Mas a realidade é outra, pois não existe suficiente estrutura para cuidar de todas as crianças que vivem em condições subumanas. Com isso, quando uma família decide que não dará cuidados para seus filhos eles simplesmente não têm acesso para entregar seus filhos ao Estado e conseqüentemente muitas delas passam a maltratar seus filhos.
Além disso, temos no Brasil existem duas pontas de um problema, onde de um lado existem pais que não podem gerar filhos próprios e crianças que não tem pais. No meio dessas duas pontas existe uma enorme lacuna de espera, dificuldades e burocracia. Exemplificando, para adotar uma criança do sexo feminino, loira, branca, com até seis meses de vida, sem problemas físicos ou mentais, padrão de preferência entre casais pretendentes, a espera no estado de São Paulo pode chegar próximo há 10 anos.
Se por um lado existe esse problema social, na outra ponta estão os pais que almejam cuidar, educar e amar um filho. Esses pais muitas vezes passaram anos tentando ter um filho biológico e não conseguiram e muitas vezes nunca cogitaram a possibilidade de terem um filho adotivo.
Não existem campanhas contínuas que promovam a adoção de crianças, o que é triste, pois quando é veiculado um caso de abandono de bebê na mídia ou de crianças adotivas em novelas existe um aumento substancial de prospectivos pais buscando pelos processos de adoção.
Entre as crianças sem pais e os pais sem crianças existe um processo burocrático e moroso. Assim é lamentável que para adotar uma criança um prospectivo adotante tenha de esperar tanto tempo. O processo é tão demorado que muitas vezes os pais até perdem a esperança que vão conseguir adotar. O motivo da demora não é por que não existem crianças disponíveis, pois existem sim, mas essas crianças passam anos nos abrigos até estarem aptas para serem adotadas. Um pai ou mãe biológico que maltrata seus filhos muitas vezes só perde a guarda definitiva da criança depois de constatado que ela corre risco de vida e ainda assim tem amplo período para defender-se. Com isso a criança passa, muitas vezes anos no abrigo e só quando está bem mais velha é que começam a buscar por pais adotivos para ela. Como a faixa de idade preferida dos pais pretendentes são de crianças com até dois anos elas tem maior dificuldade de reingressar numa nova família, sendo que algumas delas não conseguem reingressar.
Mesmo depois que se inicia o processo de adoção a finalização do processo pode levar muito tempo o que deixa os pais adotivos muito ansiosos. Além de todos os cuidados que os pais devem ter com o seu novo filho, durante muito tempo convivem com a possibilidade, muitas vezes remota, de perderem seus filhos adotados para os pais biológicos.
Diante de tudo isso, podemos afirmar de forma concludente que adotar uma criança no Brasil não é uma tarefa nada fácil e requer paciência, amor e muita coragem. Muitas vezes ouço pessoas afirmarem que gostariam de adotar uma criança, mas não sabem nem por onde começar. Até para nós, que já estávamos muito bem informados antes de ingressar no cadastro para adoção levamos cerca de seis meses só para reunirmos documentos e sermos aprovados para entrarmos na fila de espera. Pais com poucas condições financeiras e pouco acesso a informação e auxilio de advogados têm mais dificuldades para conseguir a adoção legal. Apesar das dificuldades envolvidas para a adoção legal, sempre opte por ela, pois ela dá garantia futuras em relação a qualquer pleito de terceiros em relação à criança. Aceitar que alguém dê uma criança para criar sem que haja garantias legais é muito arriscado para os prospectivos pais, pois uma vez tendo estabelecidos laços amorosos a dor da separação pode ser irreparável.
Diante de todo esse cenário, só resta esperar por mudanças significativas nos vários aspectos que envolvem uma adoção, ou seja, o processo judicial, a posição da magistratura, o papel do Estado e a posição dos pais pretendentes, pois somente assim teríamos avanços significativos na melhoria desse problema social e na alegria de pais e filhos.

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CAPÍTULO 4 – A decisão pela adoção

A DECISÃO PELA ADOÇÃO

É comum que casais que almejam adotar uma criança criem o estereótipo da criança perfeita. Assim, com isso em mente, visitam os abrigos e lá encontram dezenas de crianças com idade média de quatro anos, morenas, cabelos curtinhos (para evitar piolho) e sujas, pois afinal passam o dia brincando nos espaços de recreação desse locais. Muitas delas têm atrasos de desenvolvimento, pois não tem estímulos suficientes numa idade tão importante na vida. A carência delas é algo que se destaca, sendo que muitos até se assustam quando visitam os abrigos pela primeira vez com tantas crianças pedindo colo. Por essas e outras razões, muitos casais pretendentes, quando vêem essas crianças tem a impressão que nenhuma delas se encaixa nos seus padrões. Infelizmente isso atrapalha muito as possibilidades de felicidade entre pais e filhos adotivos, pois o estereótipo de criança perfeita é um erro que impede a felicidade.
Aqueles que adotaram sabem que a felicidade independente de raça, cor, idade e características físicas. Um mês depois de adotados e cuidados essas crianças em nada se parecem ao que eram, pois há uma transformação na vida delas que as tornam diferentes do que eram.
Assim, para adotar uma criança antes de tudo é preciso preparar o coração, porque como se diz eles serão filhos do coração. É preciso estar preparado para enfrentar desafios e lidar com incertezas. É preciso estar desprovido de altas expectativas e estar preparado para dar amor, muito amor, porque carência afetiva é o que mais elas têm.
Qualquer pai e mãe sabem que criar um filho é uma enorme responsabilidade e exige muita dedicação. Mas criar um filho adotivo requer ainda mais, pois a expectativa que se tem sobre os pais adotivos é muito maior e a carência afetiva das crianças é tanta que muitas vezes os pais se sentem sugados. Portanto, é preciso estar preparado para dar o seu melhor como pai e mãe.
Bem, quando tivemos nosso processo de cadastramento aprovado fomos informados que o processo de adoção para uma criança com as características físicas que pedimos levaria cerca de três anos. Procuramos não ser muito exigentes, pois isso poderia tornar o processo ainda mais moroso. Nesta época fazia cerca de oito anos que estávamos esperando pelo nosso filho e pensar que poderia levar mais três anos era algo que não nos agradava nem um pouco. Mas, não tínhamos muitas alternativas, portanto decidimos que iríamos esperar.
Em seguida comecei a me informar o máximo que podia sobre a adoção e pessoas que haviam adotado crianças. Acabei lendo vários blogs e conheci o relato de muitas famílias. Com isso, tomei conhecimento de relatos de pessoas que adotaram crianças fora do estado de São Paulo. Assim, iniciamos contatos com pessoas nos estados de Minas, Bahia, Maranhão e Rio Grande do Sul em busca de uma criança com menos idade e com disponibilidade de adoção imediata. A idéia era que se não conseguíssemos nós tínhamos a garantia de sermos chamados em São Paulo então não tínhamos nada a perder.
Algo muito comum é quando mães que não podem ou querem criar um filho, dêem ainda recém nascido para outra família. Isso às vezes ocorre de modo informal, sendo que muitos sequer regularizam a situação junto ao poder judiciário, o que poderia ocasionar na perda da criança posteriormente. Isso não era nossa opção para adoção, se fosse para adotar estávamos decididos a fazer isso de forma legal.
Neste tempo conhecemos algumas famílias que também adotaram crianças, pois tinham problemas semelhantes ao nosso. Numa ocasião recebemos uma ligação de que havia uma criança no interior de São Paulo que estaria disponível para ser adotada. Prontamente viajamos na madrugada do dia seguinte, e ao chegar lá descobrimos que a criança recém nascida era portadora do vírus HIV e sequer estava liberada pela adoção. Bem, nós não estávamos preparados para cuidar de uma criança com HIV e por isso desistimos dela.
Neste mesmo dia, passamos a manhã na cidade e conhecemos um abrigo que tinha diversas crianças e visitamos, sendo que lá conhecemos quatro irmãos compostos de três meninos e uma menina com diferença de idade de apenas um ano para cada uma delas, ou seja, uma escadinha de crianças.
Fomos até o Fórum e lá fomos informados que poderíamos adotar se aceitássemos todos os irmãos, pois o Juiz não aceitava separá-los. Achamos que seria demais para pais inexperientes e dissemos que não. Confesso que fiquei sensibilizado com aquelas crianças e estava propenso a aceitar o desafio. Mas criar quatro crianças sem nenhuma experiência anterior não é uma tarefa muito fácil e exige muito preparo e dedicação. Hoje tenho certeza que tomamos a decisão acertada. Alguns meses depois, o Fórum nos ligou oferecendo separar duas crianças, mas já havíamos adotado nossa filha.
A questão de separar ou não irmãos é um dos entraves que existe para que a adoção seja mais rápida. Como poucos estão dispostos a aceitar adotar mais de duas crianças, elas ficam lá aguardando outros casais ou a possibilidade de separar as crianças para diferentes casais. Foi exatamente o que ocorreu no caso daquelas crianças.
Fizemos diversas tentativas em locais distantes e próximos. Muitas vezes saí atrás de possibilidades que nos foram levantadas e iniciamos contatos com diversas pessoas em diferentes estados que nos conheciam e outras que não nos conheciam.  Em determinado período, iniciamos um contato no Estado do Mato Grosso. Esse contato foi indicado por uma tia da Ana que muito sensibilizada com nossa busca tentou nos ajudar. Ela estava até mais esperançosa que nós, pois para nós parecia ser um dos muitos contatos que fizemos. Tomamos conhecimento que uma mãe tinha três crianças em estado de maus tratos que estava prestes a perder a guarda. Como as crianças precisavam de cuidados imediatos eles buscavam um casal para cuidar de cada uma das crianças. O juiz aceitava separar as crianças o que para nós parecia algo quase impensado. Nosso contato, uma senhora que não conhecíamos, intermediou com o conselho tutelar os procedimentos para que pudéssemos ficar com uma das crianças e ainda nos perguntou com qual das três queríamos ficar. Estava muito fácil para acreditarmos que daria certo, mesmo assim optamos pela mais jovem delas, com meses de vida. Não tínhamos muitas informações, nem sequer conversamos com qualquer autoridade, mas fizemos o que nosso contato pediu e  uma declaração via fax onde indicávamos que aceitaríamos ficar com a criança menor nas condições que ela estava, que não era nenhum problema físico ou mental, mas precisava de cuidados imediatos. Pensando bem hoje, nem sei como é que aceitamos mandar o fax dessa carta, só sei que como estávamos tentando encontrar uma criança aquela foi uma das muitas tentativas.
Encaminhamos o fax com a declaração, recebemos a confirmação de recebido e não tivemos mais noticias e para falar a verdade, até perdemos esperança de receber resposta depois que passou um mês sem noticias.
Até que um dia, mais precisamente no dia 13 de Abril de 2005 recebemos um telefonema que mudou nossa vida. Mas antes de falar sobre isso quero voltar um ano no tempo.

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CAPÍTULO 5 – Uma trajédia um ano antes

Eu e meu Pai a 14 anos atrásUMA TRAGÉDIA UM ANO ANTES

Era a manhã do dia 15 de Abril de 2004 e tudo parecia como um dia como qualquer outro. Estava trabalhando e cerca das onze horas e trinta minutos fui almoçar. Todos os detalhes do que aconteceu neste dia estão muito bem gravados na minha mente. Minha mãe havia deixado um recado para que retornasse uma ligação com muita urgência para ela e assim fiz assim que cheguei do almoço. Foi neste momento que ela falou: “Andy, o papai não voltou…”
Bem, para compreender o significado dessa frase, vou falar um pouco do meu pai. Ele nasceu em 1943 e em 2004 tinha 61 anos. Seu porte físico não coincidia com a sua idade, pois diariamente ele rodava cerca de 20 quilômetros de bicicleta. Por incentivo dele e para aproveitar os momentos junto com ele eu o acompanhava cerca de três vezes por semana. A semana de quatorze de abril foi uma semana atípica nos nossos exercícios semanais. Por um motivo sem explicação eu fui duas vezes sozinho de bicicleta naquele trajeto e na quinta-feira que comumente eu participava com ele acabei não o acompanhando e ele foi sozinho.
Nosso trajeto era feito numa rodovia próxima da nossa casa onde diversas pessoas faziam semelhante trajeto. E assim ele foi sozinho fazer o trajeto. Assim que ela me disse que o papai não voltou eu senti um enorme vazio dentro de mim e imediatamente tive a sensação que meu pai tinha morrido. Comecei a partir de então uma jornada de ligações para a empresa controladora da rodovia e para hospitais para tomar conhecimento se houve atropelamento na rodovia. Após cerca de trinta minutos recebi a informação de que aconteceu um atropelamento e a vitima havia sido levada para um hospital próximo. Larguei tudo e fui correndo para o hospital e após encontrar o médico confirmei que meu pai tinha falecido.
É incrível como sabemos que todos estão sujeitos ao imprevisto, mas como é difícil aceita-lo. Meu pai sempre foi um companheiro para mim e naquele momento estava vivendo um momento que há anos não vivia com ele, pois conversávamos muito e estávamos muito amigos. Várias incertezas me atormentaram durante muito tempo, como o fato de não ter tido contato com ele naquela semana e o modo como foi atropelado que nunca foi esclarecido. A morte é dura para todos nós, mas quando uma vida é interrompida por acidente ou outros fatores, a sensação que existe é que a dor é maior.
Hoje com o passar dos anos aprendemos a conviver com a falta dele. Minha mãe que parecia ser a pessoa menos capaz de lidar com tudo isso foi a que mais nos serviu de exemplo e admiramos muito ela.
De qualquer modo, todas as lembranças que guardo do meu pai são as mais positivas que espero levá-las aos meus filhos.

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CAPÍTULO 6 – A ligação que mudou nossa vida

A LIGAÇÃO QUE MUDOU NOSSA VIDA

Conforme já dito anteriormente, no dia 13 de Abril de 2005 recebemos uma ligação que mudou nossa vida, exatamente dois dias antes de completar um ano do falecimento do meu pai. Naquele dia nosso contato me ligou e disse as seguintes palavras: Anderson, você precisa vir para o Mato Grosso hoje, a sua filha está te esperando no hospital. Bem, é muito difícil de explicar o que se passou pela minha cabeça naquele momento. Mas a única coisa que consegui fazer foi pegar o nome da cidade e dizer que não poderia viajar no mesmo dia, mas que no dia seguinte seguiria com o primeiro vôo para lá.
A adoção de uma criança nestas circunstâncias é atípica as circunstâncias normais dos processos de adoção. Normalmente, os pais pretendentes são chamados para conhecer a criança e iniciar uma aproximação para tomarem então a decisão se vão ou não candidatar a adoção da criança. No nosso caso, nós simplesmente recebemos uma ligação e tínhamos de decidir se íamos ou não. Não sabia o nome da criança, o estado de saúde, a idade dela ou demais informações. Sabíamos apenas que era uma menina de cerca de cinco meses que estava em estado de desnutrição, internada sobre cuidados médicos e não tinha nenhum problema físico ou grave de saúde.
Desliguei o telefone e saí para comprar passagem. No caminho liguei para minha esposa e disse: Ana, você está sentada? Senta, porque estou comprando passagem para viajarmos ao Mato Grosso buscar nossa filha. A Ana ficou simplesmente estática, sem ação.
Como não sabíamos qual seria o desfecho dessa história decidimos que não contaríamos para ninguém, nem para nossos pais. Apenas fizemos as malas, informamos que íamos viajar e fomos.
No dia seguinte tomamos o primeiro vôo e descemos na capital e posteriormente fomos para a cidade, que de tão longe que era só chegamos à madrugada do dia 15.

Gigi no 1º contato

Gigi no 1º contato

Fui recebido pelo nosso contato e fomos até o hospital. O hospital era muito precário, numa sala de aproximadamente trinta metros quadrados existiam cerca de dez mães com suas crianças. Naquele momento tive uma das cenas mais emocionantes da minha vida. Nosso contato nos levou ao bercinho de uma criança e quando nos aproximamos vimos um neném indefeso, com cinco meses de idade e pesando apenas 3.800 kg. Ela tinha um rostinho de fome, típico das crianças que conhecemos de países africanos, era tão leve quanto uma criança recém nascida, não tinha cabelo e apresentava uma aparência sofrida e estava só de fralda. Mas de tudo o que vimos para nós ela era lindinha. As palavras que ouvimos naquele momento ainda ressoam na minha mente: “E essa é sua filha”.
Aquela pessoa não tinha a compreensão do significado daquelas palavras, aquilo era a realização de um sonho e o fim de uma espera. Por alguns minutos fiquei olhado para o rostinho dela e me veio à mente que deveria registrar aquele momento e tirei uma foto no meu celular. Só assim as pessoas poderiam acreditar nas condições que ela estava. Durante alguns minutos minha esposa ficou segurando ela no colo e em seguida me deu para segurá-la. Olhamos bem o corpinho dela e vimos que ela estava bem, mas estava muito debilitada e com uma forte pneumonia.
No momento que a peguei no colo tudo mudou. É difícil de explicar, mas foi como se ela tivesse acabado de nascer e fosse minha filha biológica. Já não podia aceitar deixá-la ali desamparada. Seria como se ela tivesse sido encomendada especialmente para nós.
É difícil de explicar como essas coisas funcionam na mente de uma pessoa que adota uma criança, mas a sensação é como se ela sempre tivesse sido nossa filha desde que nasceu. Outra sensação bem atípica é o fato de que não tivemos tempo para nos tornarmos pais. Pais normais possuem nove meses para planejar cada detalhe, dos móveis às roupas do bebê. Até as roupinhas que o bebê sairá do hospital é planejado. No hospital a mãe e o bebê recebem visitas de amigos e vão para casa com cuidados pessoais. Bem, estávamos a milhares de quilômetros, num lugar que não conhecíamos, me tornando pai de um dia para o outro, pensando como faria para voltar para casa e levar um bebê que nem nome tinha.
Mas, mesmo com todas essas incertezas no dia seguinte saí cedo para as compras e passei a comprar tudo para um bebê. Apesar de ter cinco meses às roupinhas de recém nascido às vezes ficavam grandes demais. As pessoas me perguntavam por que o bebê tinha tão pouco peso e explicava de loja em loja. Após algumas horas de compras cheguei naquele hospital com tudo e lá permaneci por algumas horas esperando pela vinda da conselheira tutelar que iria nos dar maiores informações. Naquele momento começamos a ficar com medo, porque não existia qualquer garantia que poderíamos ficar com nosso bebê. Ela perguntou para nós se tínhamos certeza de que estávamos dispostos mesmos a ficar com o bebê e perguntei no meu intimo se ela não imaginava que tinha viajado tanto para buscar nosso bebê e ainda alguém nos perguntava se tínhamos certeza. Acho até que aquela senhora naquele momento não estava plenamente segura de que poderia contar com nossa vontade de adotá-la, mas fomos enfáticos e ela nos deu uma autorização de que podíamos ficar com o bebê.
Assinei os papéis e perguntei se naquele momento poderia tirá-la dali. Ela me olhou espantada e continuei explicando que tinha reservado um quarto em um hospital particular e para lá fomos, onde a bebê ficou mais dois dias.
Depois de alguns dias com o bebê decidimos o nome dela e passamos a chamá-la de Giovanna. Bem, assim que saímos do hospital passamos um medo enorme de perder a Giovanna. Não sabíamos como faríamos para trazê-la para São Paulo, pois o Fórum ficava a dezenas de quilômetros de distância. Procuramos alguns advogados e um deles nos atendeu muito bem e resolvemos contratá-lo. O primeiro passo era dirigir-se ao Fórum e assim marcamos um horário e assim fizemos. Chegando ao fórum, para nossa surpresa o juiz havia concedido guarda provisória da nossa filha e voltamos maravilhados com aquilo, pois nem acreditávamos que o juiz nos tinha dado a guarda dela. Tiramos uma cópia do processo e assim viajamos de volta para casa.
Foi somente quando tínhamos a certeza de que tudo estava encaminhado que ligamos para nossos parentes para dar a notícia. Todos ficaram felizes e surpresos e no dia seguinte estávamos de volta em casa.
Minha mãe tinha passado um ano muito difícil, como já disse antes. Além disso, como estava fazendo um ano que papai havia falecido era um momento ainda mais difícil. Sinceramente a julgar do que conhecia da minha mãe pensava que ela não seria capaz de conviver com a perda do meu pai, mas ela surpreendeu a todos e tem superado todos os problemas que passou.
Minha mãe foi a primeira pessoa que conheceu nossa filha quando voltamos para casa. Ela ficou mais de uma hora esperando nós no portão de casa até que chegássemos. Ela nem acreditava no que estava vendo quando viu ela e ficou muito emocionada com nossa filha.
Para nós foi um grande alívio quando finalmente chegamos em nossa casa, pois nos sentíamos protegidos da possibilidade de alguém ir buscar nossa filha de volta. Em pouco tempo as pessoas ficaram sabendo que tínhamos adotado uma menina e começamos a receber visitas. Até vizinhos que não tínhamos afinidade passaram a partir daquele dia a nos tratar diferente.
Mas tudo aquilo era apenas o começo.

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CAPÍTULO 7 – Os primeiros anos com nossa filha

Ana e minha princesa

Ana e minha princesa

OS PRIMEIROS ANOS COM NOSSA FILHA

A nossa filha é uma criança incrível. Lembro-me que quando ela estava no hospital os médicos afirmavam que ela ficaria com alguma seqüela em virtude da desnutrição. Como aqueles médicos estavam enganados, pois ela é uma criança normal, tem três anos de idade e ao contrário da informação dos médicos ela apresenta um avanço em relação a outras crianças da idade dela do ponto de vista da comunicação. Ela consegue argumentar como uma criança bem mais velha e tem uma rapidez de raciocínio que surpreende a todos.
Decidimos que nossa filha chamaria Giovanna. É muito comum que os pais adotivos mudem o nome dos seus filhos. Nestes casos, a criança tem um nome em seus documentos e a chamamos de outro nome. Às vezes temos de dar algumas explicações, como quando a levamos para consulta médica e outros locais. Somente depois que o processo de adoção finaliza é que o juiz oficializa o cartório para efetuar uma nova certidão de nascimento. E com ela não foi diferente.
Durante muito tempo a Gigi teve problemas para o cabelinho dela crescesse e mesmo depois de ter engordado muito ela ainda era carequinha. Isso era um reflexo do enfraquecimento causado pela desnutrição. Hoje ela tem um cabelinho comprido, mas já se mostrou que vai dar muito trabalho com chapinhas quando ela se tornar adolescente. Hoje, no entanto, temos apenas de conviver com o choro dela toda vez que precisamos fazer as trancinhas no cabelo dela devido ficar embaraçado após o banho.
Desde pequena a Gigi já deu indícios que terá uma personalidade muito forte, pois ela tem opinião própria e é muito difícil de mudá-la. Com três anos ela já escolhe suas próprias roupas e decide com quem quer dormir. Mas apesar de ser assim, quando chamamos a atenção dela ela fica muito triste consigo mesma e prontamente pede desculpas para nós. Com freqüência faz perguntas se estamos felizes com ela, como que buscando aprovação pela filha que é.
Quando penso em todo o esforço que fizemos para adotar nossa filha sinto que faria tudo de novo. As alegrias que tivemos com ela não têm preço. Admiro muito ela que apesar de tão pequenina ela tem uma felicidade enorme. Até quando ela está doente ela olha para mim e diz que vai ficar boa logo. Só de pensar que mais um pouco ela não teria sobrevivido eu fico emocionado.
Com a Gigi aprendi que os laços consangüíneos não têm relação direta com a relação entre pai e filho. Apesar de ela não ter sido gerada por nós temos uma relação tão apegada que supera todas as minhas expectativas em relação a como seria ter um filho adotivo. Assim, só tenho a dizer que o privilégio da adoção é algo impar que pode transformar a vida de um casal.

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CAPÍTULO 8 – A “Menina”

A "Menina" quando foi adotada

A "Menina" quando foi adotada

A “MENINA”

Desde que adotamos a Giovanna ela tem uma boneca de pano que dei de presente a ela e que recebeu o nome de “menina”. A “menina” é a filha dela. Tudo o que fazemos com ela, desde o carinho até a educação e disciplina ela transfere para a menina. Se dermos bronca na Gigi ela logo pede a menina e começa a chorar com ela.
Ela conversa muito com a menina, e a menina conversa muito com ela, claro que na voz de um terceiro que no caso sou eu. E ela conversa com a menina como se estivesse conversando com uma pessoa de verdade. Nunca podemos esquecer a menina. Um dia, estávamos viajando em Santa Catarina e por um descuido nosso  esquecemos a menina dentro do taxi. Ficamos desesperados, pois a Giovanna estava dormindo e quando acordasse iria procurar a menina. Ainda bem que encontrei o telefone do taxista e tive de pagar uma corrida de taxi para uma boneca, difícil de acreditar, mas a menina é quase uma pessoa.
Como percebemos que a Giovanna desenvolveu sentimentos de uma mãe em relação à menina passamos a usar a “menina” para muitas coisas. Assim, muitas vezes quando a Giovanna faz algo de errado e precisamos discipliná-la, colocamos a menina de castigo ao invés dela. Parece que dói na Gigi mais por ser a “menina” do que se fosse com ela própria.
Sempre tivemos a preocupação de como contaríamos para a Giovanna que ela foi adotada. Talvez seja difícil para uma criança entender essa situação de que não veio da barriga da sua mãe. Percebemos que a menina seria útil nessa tarefa. Assim, para fazer com que a Giovanna se familiarizar com a adoção nós passamos a transferir a história dela própria para a menina.

A "Menina" hoje

A "Menina" hoje

Começamos dizendo que a menina morava no Mato Grosso, que ela era bem magrinha e que um dia ela tinha ido até lá e adotou a menina e passou a cuidar dela. Fazia isso fazendo a voz da menina falando com a Gigi. Um dia a Giovanna perguntou onde tinha nascido e dissemos que foi no Mato Grosso, aí ela olhou para mim e disse que a menina também. Assim mostramos foto dela magrinha e ela trouxe rapidamente a imagem da menina para si mesma, o que facilitou a compreensão dela.
Bem, a menina já se acabou umas três vezes, assim ela já tem muitas irmãs gêmeas que auxiliam na tarefa de quando a “menina” oficial está secando no varal. De qualquer modo, já aprendi que viramos mesmo avós da “menina”.

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