Primeiro contato com nosso filho

Primeiro contato com nosso filho

NOSSO 2º FILHO

Era um dia de março de 2007. A Giovanna havia se desenvolvendo muito bem, tinha se desenvolvido física e mentalmente acima das nossas expectativas conforme já falamos. Estávamos muito felizes com tudo isso e até devido todo o trabalho envolvido na criação de filhos tínhamos optado por não adotar outro pelo menos por alguns anos. Mas, nosso cadastro em São Paulo continuava ativo e um dia recebemos uma ligação que mudou tudo isso. A assistente social nos informou que nossa vez na fila de espera chegou e que tinha um menino num abrigo próximo que poderíamos conhecer se desejássemos. Na hora simplesmente pensei em descartar, mas me deu uma curiosidade de conhecer aquela criança e sugeri a minha esposa de irmos lá sem qualquer compromisso. E assim fizemos…
Aqueles que já tiveram a oportunidade de visitar um abrigo de criança sabem como é difícil para os responsáveis por tais lugares lidarem com tantas dificuldades. Eles precisam de muita abnegação para poder atender as necessidades e as exigências legais de cuidados que devem prestar as crianças. Assim que se chega num local desses as crianças simplesmente vêem nos nossos braços pedem colo, carinho e tudo mais. Algumas se retraem, mas não são todas. Assim que chegamos, logo tínhamos duas crianças uma em cada braço e outras duas agarradas em cada perna.
De longe fomos informados sobre o nosso prospectivo filho era o menino de três anos, que havia sido abandonado e tinha outros irmãos já em fase de adoção. Aproximamo-nos dele, mas ele nem olhava para nós de tanta vergonha. Ficamos um tempo tentando arrancar dele um olhar, porém foi muito difícil. Na saída fomos informados que poderíamos voltar no dia seguinte se quiséssemos continuar com o processo de aproximação. E assim fizemos, voltamos durante vários dias seguidos e ele sempre ficava muito retraído e nem conversava conosco. Apesar de não conversar conosco, quando chegávamos falava que a mãe e o pai dele estavam chegando. Assim fomos criando vínculo com ele.
A forma como as outras crianças encaram um visitante que está fazendo aproximação em uma criança é interessante. Na segunda vez que fomos ao abrigo às outras crianças já falavam que éramos os pais dele. A vontade que eles têm de sair do abrigo é tanta que até mesmo as demais crianças apóiam a aproximação. Do mesmo modo que algumas apóiam outras têm ciúmes e começam a maltratar aquelas que estão em processo de aproximação. Existem aquelas que pedem que sejamos pais deles também.

Claudinho antes da adoção

Claudinho antes da adoção

O processo de aproximação pode levar pouco ou muito tempo de acordo com os fatores envolvidos. No caso de crianças com mais idade, normalmente estende-se por um período maior. Se os pais conseguirem ir todos os dias como foi nosso caso o processo torna-se mais rápido.
Dentro do abrigo a criança não tem absolutamente nada dela, pois tudo é coletivo. Se quisermos dar um brinquedo o ideal é levar o brinquedo e trazer de volta para a próxima visita, pois se deixar lá logo em seguida ele se perde. As roupas obviamente são passadas de criança para criança em conformidade com o crescimento delas. Já as crianças dependem muito das doações de pessoas para poderem comer coisas diferentes, assim coisas simples como pacotes de balas e pirulitos, gelatinas e outras sobremesas são sempre bem vindas.
Uma vez que aceitamos iniciar o processo de aproximação passamos a visitá-lo todos os dias e após duas semanas recebemos autorização para trazê-lo no final de semana. A Giovanna acolheu o irmão de forma surpreendente. No primeiro dia que foi visitá-lo ela até assustou ele de tanto que o abraçou. Ela o chamava de irmãozinho e fazia carinho nele. A presença dela ajudou muito ele, pois em casa ele tinha com quem brincar e para ela também foi excelente porque ela se tornou mais criança uma vez que ela convivia muito com adultos.
Após cerca de 40 dias entre idas e vindas no abrigo finalmente o juiz nos concedeu a guarda provisória do nosso filho, que passamos a chamá-lo de Claudio. Ele gostou do nome. Hoje, depois de pouco mais de um ano conosco, ele mudou muito em relação ao que era.
Aquela criança que quase não falava, tinha vergonha e era quieta em nada se assemelha ao que ele é hoje. Ele fala muito, tanto que às vezes temos de pedir para ele falar menos. É muito agitado, e dá um “baile” para dormir, pois quer aproveitar cada minuto para brincar.
Enquanto estou escrevendo esse capítulo o Claudio está com o pé engessado. Um portão caiu no pé dele enquanto brincava com o cachorro dele. Bem, o medido disse que ele teria de fazer repouso, mas o repouso só durou poucas horas. Depois disso ele começou a andar e hoje tá literalmente correndo de gesso. Desse jeito já descobrimos que nada segura ele.
Decidimos dar um cachorro de presente para os dois, mas foi o Claudio que gostou demais do Scooby, um labrador que hoje tem seis meses e mais parece um touro. Aliás, o cachorro fez muito bem para ele. Ele tinha muito medo de tudo e hoje ele está mais confiante e seguro. Ele deixa o cachorro morder ele e brinca demais com ele e sempre está próximo dele quando estamos em casa. Acho que para ele fizemos uma boa escolha. Já a minha filha não aprecia muito um cachorro lambendo ela.
Fico muito feliz de ter adotado o Claudio também, pois ele completou a família. Confesso que foi outro desafio a adaptação, mas a alegria que tenho de vê-los tão unidos é algo que supera tudo isso. Ele durante muito tempo apagou que um dia tinha vivido no abrigo. Quando mostrávamos as fotos, ele simplesmente perguntava onde era aquele lugar, mesmo depois de poucos dias que tinha saído de lá.
Um dia ele olhou para mim e disse que não gostava de morar naquele lugar. Diz que não gostava porque não tinha pai, nem mãe e nem tinha um quartinho dele. Bem, isso me surpreendeu, pois pensava mesmo que ele tivesse se esquecido do tempo que viveu lá, mas na verdade ele inconscientemente estava se defendendo daquele tempo.
Quando completou um ano que o adotamos, fizemos uma festinha para ele, semelhante a que fizemos para a Giovanna. Ele ficou muito feliz. Recebeu seus amiguinhos e seus irmãos biológicos. Até hoje ele pede que mostremos o vídeo da festinha dele.
Sempre o deixamos bem a vontade para poder conversar com seus irmãos biológicos quando ele quiser. Assim, de tempo em tempo eles se vêem e conversam por telefone. Mas explicamos sempre que cada um tem o seu papai e mamãe. Ele entende, e ficamos felizes com essa relação entre eles. Acho importante que ele mantenha o contato com eles, pois isso o deixa feliz.
Quando penso em todo o progresso que ele fez em relação ao período que o conhecemos e hoje fico muito feliz, pois temos realizado um bom trabalho como pais. Os sentimentos que ele demonstra como filho também é um reflexo de todo o amor que damos a ele. É claro que muitas vezes ficamos cansados com toda a rotina de criar duas crianças da mesma idade, mas como já salientado não temos o que reclamar, pois os benefícios superam em muito os desafios.