A LIGAÇÃO QUE MUDOU NOSSA VIDA

Conforme já dito anteriormente, no dia 13 de Abril de 2005 recebemos uma ligação que mudou nossa vida, exatamente dois dias antes de completar um ano do falecimento do meu pai. Naquele dia nosso contato me ligou e disse as seguintes palavras: Anderson, você precisa vir para o Mato Grosso hoje, a sua filha está te esperando no hospital. Bem, é muito difícil de explicar o que se passou pela minha cabeça naquele momento. Mas a única coisa que consegui fazer foi pegar o nome da cidade e dizer que não poderia viajar no mesmo dia, mas que no dia seguinte seguiria com o primeiro vôo para lá.
A adoção de uma criança nestas circunstâncias é atípica as circunstâncias normais dos processos de adoção. Normalmente, os pais pretendentes são chamados para conhecer a criança e iniciar uma aproximação para tomarem então a decisão se vão ou não candidatar a adoção da criança. No nosso caso, nós simplesmente recebemos uma ligação e tínhamos de decidir se íamos ou não. Não sabia o nome da criança, o estado de saúde, a idade dela ou demais informações. Sabíamos apenas que era uma menina de cerca de cinco meses que estava em estado de desnutrição, internada sobre cuidados médicos e não tinha nenhum problema físico ou grave de saúde.
Desliguei o telefone e saí para comprar passagem. No caminho liguei para minha esposa e disse: Ana, você está sentada? Senta, porque estou comprando passagem para viajarmos ao Mato Grosso buscar nossa filha. A Ana ficou simplesmente estática, sem ação.
Como não sabíamos qual seria o desfecho dessa história decidimos que não contaríamos para ninguém, nem para nossos pais. Apenas fizemos as malas, informamos que íamos viajar e fomos.
No dia seguinte tomamos o primeiro vôo e descemos na capital e posteriormente fomos para a cidade, que de tão longe que era só chegamos à madrugada do dia 15.

Gigi no 1º contato

Gigi no 1º contato

Fui recebido pelo nosso contato e fomos até o hospital. O hospital era muito precário, numa sala de aproximadamente trinta metros quadrados existiam cerca de dez mães com suas crianças. Naquele momento tive uma das cenas mais emocionantes da minha vida. Nosso contato nos levou ao bercinho de uma criança e quando nos aproximamos vimos um neném indefeso, com cinco meses de idade e pesando apenas 3.800 kg. Ela tinha um rostinho de fome, típico das crianças que conhecemos de países africanos, era tão leve quanto uma criança recém nascida, não tinha cabelo e apresentava uma aparência sofrida e estava só de fralda. Mas de tudo o que vimos para nós ela era lindinha. As palavras que ouvimos naquele momento ainda ressoam na minha mente: “E essa é sua filha”.
Aquela pessoa não tinha a compreensão do significado daquelas palavras, aquilo era a realização de um sonho e o fim de uma espera. Por alguns minutos fiquei olhado para o rostinho dela e me veio à mente que deveria registrar aquele momento e tirei uma foto no meu celular. Só assim as pessoas poderiam acreditar nas condições que ela estava. Durante alguns minutos minha esposa ficou segurando ela no colo e em seguida me deu para segurá-la. Olhamos bem o corpinho dela e vimos que ela estava bem, mas estava muito debilitada e com uma forte pneumonia.
No momento que a peguei no colo tudo mudou. É difícil de explicar, mas foi como se ela tivesse acabado de nascer e fosse minha filha biológica. Já não podia aceitar deixá-la ali desamparada. Seria como se ela tivesse sido encomendada especialmente para nós.
É difícil de explicar como essas coisas funcionam na mente de uma pessoa que adota uma criança, mas a sensação é como se ela sempre tivesse sido nossa filha desde que nasceu. Outra sensação bem atípica é o fato de que não tivemos tempo para nos tornarmos pais. Pais normais possuem nove meses para planejar cada detalhe, dos móveis às roupas do bebê. Até as roupinhas que o bebê sairá do hospital é planejado. No hospital a mãe e o bebê recebem visitas de amigos e vão para casa com cuidados pessoais. Bem, estávamos a milhares de quilômetros, num lugar que não conhecíamos, me tornando pai de um dia para o outro, pensando como faria para voltar para casa e levar um bebê que nem nome tinha.
Mas, mesmo com todas essas incertezas no dia seguinte saí cedo para as compras e passei a comprar tudo para um bebê. Apesar de ter cinco meses às roupinhas de recém nascido às vezes ficavam grandes demais. As pessoas me perguntavam por que o bebê tinha tão pouco peso e explicava de loja em loja. Após algumas horas de compras cheguei naquele hospital com tudo e lá permaneci por algumas horas esperando pela vinda da conselheira tutelar que iria nos dar maiores informações. Naquele momento começamos a ficar com medo, porque não existia qualquer garantia que poderíamos ficar com nosso bebê. Ela perguntou para nós se tínhamos certeza de que estávamos dispostos mesmos a ficar com o bebê e perguntei no meu intimo se ela não imaginava que tinha viajado tanto para buscar nosso bebê e ainda alguém nos perguntava se tínhamos certeza. Acho até que aquela senhora naquele momento não estava plenamente segura de que poderia contar com nossa vontade de adotá-la, mas fomos enfáticos e ela nos deu uma autorização de que podíamos ficar com o bebê.
Assinei os papéis e perguntei se naquele momento poderia tirá-la dali. Ela me olhou espantada e continuei explicando que tinha reservado um quarto em um hospital particular e para lá fomos, onde a bebê ficou mais dois dias.
Depois de alguns dias com o bebê decidimos o nome dela e passamos a chamá-la de Giovanna. Bem, assim que saímos do hospital passamos um medo enorme de perder a Giovanna. Não sabíamos como faríamos para trazê-la para São Paulo, pois o Fórum ficava a dezenas de quilômetros de distância. Procuramos alguns advogados e um deles nos atendeu muito bem e resolvemos contratá-lo. O primeiro passo era dirigir-se ao Fórum e assim marcamos um horário e assim fizemos. Chegando ao fórum, para nossa surpresa o juiz havia concedido guarda provisória da nossa filha e voltamos maravilhados com aquilo, pois nem acreditávamos que o juiz nos tinha dado a guarda dela. Tiramos uma cópia do processo e assim viajamos de volta para casa.
Foi somente quando tínhamos a certeza de que tudo estava encaminhado que ligamos para nossos parentes para dar a notícia. Todos ficaram felizes e surpresos e no dia seguinte estávamos de volta em casa.
Minha mãe tinha passado um ano muito difícil, como já disse antes. Além disso, como estava fazendo um ano que papai havia falecido era um momento ainda mais difícil. Sinceramente a julgar do que conhecia da minha mãe pensava que ela não seria capaz de conviver com a perda do meu pai, mas ela surpreendeu a todos e tem superado todos os problemas que passou.
Minha mãe foi a primeira pessoa que conheceu nossa filha quando voltamos para casa. Ela ficou mais de uma hora esperando nós no portão de casa até que chegássemos. Ela nem acreditava no que estava vendo quando viu ela e ficou muito emocionada com nossa filha.
Para nós foi um grande alívio quando finalmente chegamos em nossa casa, pois nos sentíamos protegidos da possibilidade de alguém ir buscar nossa filha de volta. Em pouco tempo as pessoas ficaram sabendo que tínhamos adotado uma menina e começamos a receber visitas. Até vizinhos que não tínhamos afinidade passaram a partir daquele dia a nos tratar diferente.
Mas tudo aquilo era apenas o começo.

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