A DECISÃO PELA ADOÇÃO

É comum que casais que almejam adotar uma criança criem o estereótipo da criança perfeita. Assim, com isso em mente, visitam os abrigos e lá encontram dezenas de crianças com idade média de quatro anos, morenas, cabelos curtinhos (para evitar piolho) e sujas, pois afinal passam o dia brincando nos espaços de recreação desse locais. Muitas delas têm atrasos de desenvolvimento, pois não tem estímulos suficientes numa idade tão importante na vida. A carência delas é algo que se destaca, sendo que muitos até se assustam quando visitam os abrigos pela primeira vez com tantas crianças pedindo colo. Por essas e outras razões, muitos casais pretendentes, quando vêem essas crianças tem a impressão que nenhuma delas se encaixa nos seus padrões. Infelizmente isso atrapalha muito as possibilidades de felicidade entre pais e filhos adotivos, pois o estereótipo de criança perfeita é um erro que impede a felicidade.
Aqueles que adotaram sabem que a felicidade independente de raça, cor, idade e características físicas. Um mês depois de adotados e cuidados essas crianças em nada se parecem ao que eram, pois há uma transformação na vida delas que as tornam diferentes do que eram.
Assim, para adotar uma criança antes de tudo é preciso preparar o coração, porque como se diz eles serão filhos do coração. É preciso estar preparado para enfrentar desafios e lidar com incertezas. É preciso estar desprovido de altas expectativas e estar preparado para dar amor, muito amor, porque carência afetiva é o que mais elas têm.
Qualquer pai e mãe sabem que criar um filho é uma enorme responsabilidade e exige muita dedicação. Mas criar um filho adotivo requer ainda mais, pois a expectativa que se tem sobre os pais adotivos é muito maior e a carência afetiva das crianças é tanta que muitas vezes os pais se sentem sugados. Portanto, é preciso estar preparado para dar o seu melhor como pai e mãe.
Bem, quando tivemos nosso processo de cadastramento aprovado fomos informados que o processo de adoção para uma criança com as características físicas que pedimos levaria cerca de três anos. Procuramos não ser muito exigentes, pois isso poderia tornar o processo ainda mais moroso. Nesta época fazia cerca de oito anos que estávamos esperando pelo nosso filho e pensar que poderia levar mais três anos era algo que não nos agradava nem um pouco. Mas, não tínhamos muitas alternativas, portanto decidimos que iríamos esperar.
Em seguida comecei a me informar o máximo que podia sobre a adoção e pessoas que haviam adotado crianças. Acabei lendo vários blogs e conheci o relato de muitas famílias. Com isso, tomei conhecimento de relatos de pessoas que adotaram crianças fora do estado de São Paulo. Assim, iniciamos contatos com pessoas nos estados de Minas, Bahia, Maranhão e Rio Grande do Sul em busca de uma criança com menos idade e com disponibilidade de adoção imediata. A idéia era que se não conseguíssemos nós tínhamos a garantia de sermos chamados em São Paulo então não tínhamos nada a perder.
Algo muito comum é quando mães que não podem ou querem criar um filho, dêem ainda recém nascido para outra família. Isso às vezes ocorre de modo informal, sendo que muitos sequer regularizam a situação junto ao poder judiciário, o que poderia ocasionar na perda da criança posteriormente. Isso não era nossa opção para adoção, se fosse para adotar estávamos decididos a fazer isso de forma legal.
Neste tempo conhecemos algumas famílias que também adotaram crianças, pois tinham problemas semelhantes ao nosso. Numa ocasião recebemos uma ligação de que havia uma criança no interior de São Paulo que estaria disponível para ser adotada. Prontamente viajamos na madrugada do dia seguinte, e ao chegar lá descobrimos que a criança recém nascida era portadora do vírus HIV e sequer estava liberada pela adoção. Bem, nós não estávamos preparados para cuidar de uma criança com HIV e por isso desistimos dela.
Neste mesmo dia, passamos a manhã na cidade e conhecemos um abrigo que tinha diversas crianças e visitamos, sendo que lá conhecemos quatro irmãos compostos de três meninos e uma menina com diferença de idade de apenas um ano para cada uma delas, ou seja, uma escadinha de crianças.
Fomos até o Fórum e lá fomos informados que poderíamos adotar se aceitássemos todos os irmãos, pois o Juiz não aceitava separá-los. Achamos que seria demais para pais inexperientes e dissemos que não. Confesso que fiquei sensibilizado com aquelas crianças e estava propenso a aceitar o desafio. Mas criar quatro crianças sem nenhuma experiência anterior não é uma tarefa muito fácil e exige muito preparo e dedicação. Hoje tenho certeza que tomamos a decisão acertada. Alguns meses depois, o Fórum nos ligou oferecendo separar duas crianças, mas já havíamos adotado nossa filha.
A questão de separar ou não irmãos é um dos entraves que existe para que a adoção seja mais rápida. Como poucos estão dispostos a aceitar adotar mais de duas crianças, elas ficam lá aguardando outros casais ou a possibilidade de separar as crianças para diferentes casais. Foi exatamente o que ocorreu no caso daquelas crianças.
Fizemos diversas tentativas em locais distantes e próximos. Muitas vezes saí atrás de possibilidades que nos foram levantadas e iniciamos contatos com diversas pessoas em diferentes estados que nos conheciam e outras que não nos conheciam.  Em determinado período, iniciamos um contato no Estado do Mato Grosso. Esse contato foi indicado por uma tia da Ana que muito sensibilizada com nossa busca tentou nos ajudar. Ela estava até mais esperançosa que nós, pois para nós parecia ser um dos muitos contatos que fizemos. Tomamos conhecimento que uma mãe tinha três crianças em estado de maus tratos que estava prestes a perder a guarda. Como as crianças precisavam de cuidados imediatos eles buscavam um casal para cuidar de cada uma das crianças. O juiz aceitava separar as crianças o que para nós parecia algo quase impensado. Nosso contato, uma senhora que não conhecíamos, intermediou com o conselho tutelar os procedimentos para que pudéssemos ficar com uma das crianças e ainda nos perguntou com qual das três queríamos ficar. Estava muito fácil para acreditarmos que daria certo, mesmo assim optamos pela mais jovem delas, com meses de vida. Não tínhamos muitas informações, nem sequer conversamos com qualquer autoridade, mas fizemos o que nosso contato pediu e  uma declaração via fax onde indicávamos que aceitaríamos ficar com a criança menor nas condições que ela estava, que não era nenhum problema físico ou mental, mas precisava de cuidados imediatos. Pensando bem hoje, nem sei como é que aceitamos mandar o fax dessa carta, só sei que como estávamos tentando encontrar uma criança aquela foi uma das muitas tentativas.
Encaminhamos o fax com a declaração, recebemos a confirmação de recebido e não tivemos mais noticias e para falar a verdade, até perdemos esperança de receber resposta depois que passou um mês sem noticias.
Até que um dia, mais precisamente no dia 13 de Abril de 2005 recebemos um telefonema que mudou nossa vida. Mas antes de falar sobre isso quero voltar um ano no tempo.

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