Aqueles que decidiram um dia adotar uma criança sabem que o processo de adoção não é uma tarefa nada fácil. São diversos documentos além de entrevistas e atestados médicos. Isso serve para selecionar candidatos capazes de suprir as necessidades de crianças cuja realidade, na maioria das vezes é bem diferente daquelas que são criadas por pais biológicos responsáveis.
Quando uma criança é disponibilizada para adoção, normalmente essa criança passou por diferentes fases que marcam a sua vida, independentemente de ela ser recém nascida ou não. Afinal por que estaria disponível para adoção se não fosse por problemas que ela tenha passado na sua vida? Portanto, abandono, rejeição, maus-tratos, violência doméstica, fome, agressão moral e violência sexual são algumas das coisas que ocorrem com essas crianças. Quando finalmente o poder público consegue retirar essas crianças dos seus lares, normalmente elas são entregues a instituições ou abrigos de menores, com o objetivo que fiquem por pouco tempo lá, aguardando até que sejam encaminhados para novas famílias que passaram pelo processo de cadastramento e aprovação do Fórum.
Os maus-tratos a essas crianças incluem dezenas de tratos absurdos para nós seres humanos normais compreendermos. Muitas crianças são vitimas de abusos físicos, verbais e sexuais. Os abusos físicos incluem agressões e torturas como queimar os filhos com cigarros, apertar dedos com alicates, espancamento e muito mais. Muitas crianças são mantidas em cárcere privado, por serem acorrentadas ou amarradas dentro de casa ou simplesmente deixadas sozinhas sem qualquer supervisão. Outras muito pequeninas vêem seus genitores manterem relações sexuais ou até mesmo são vitimas de abuso sexual por pais, padastros ou outros familiares.
Além disso, existem aquelas que são abandonadas em abrigos ou até mesmo sobreviveram a tentativa de assassinato de seus próprios pais.
As pessoas ficam horrorizadas quando algo assim é veiculado pela mídia, mas tais acontecimentos são muito mais comuns do que se imaginam. Basta uma olhada nos abrigos de crianças para encontrarmos outra realidade que inclui dezenas de crianças em tais situações. O mínimo que encontramos em tais abrigos são crianças que foram vitimas de abusos emocionais. Tais pais biológicos não têm a mínima noção de quão danoso é submeter crianças tão pequenas a tais abusos, muitas vezes comprometendo toda a vida delas. É por isso, muitas delas precisam de acompanhamento psicológico por longo período após a adoção.
O Brasil é um país em que existem grandes diferenças sociais. Assim, surgem famílias que tem padrão de vida bem abaixo da linha da pobreza. Simplesmente algumas crianças não têm o que comer. A baixa escolaridade aliada à pobreza que muitas famílias vivem simplesmente fez com que surgissem pais desinteressados ou sem condições para criar seus filhos. Assim, é comum vermos filhos que simplesmente vivem nas ruas ou tem pouca atenção e cuidados de suas famílias.
O Estado tem a obrigação social de cuidar das crianças e adolescentes, pois isso é garantido por lei. Mas a realidade é outra, pois não existe suficiente estrutura para cuidar de todas as crianças que vivem em condições subumanas. Com isso, quando uma família decide que não dará cuidados para seus filhos eles simplesmente não têm acesso para entregar seus filhos ao Estado e conseqüentemente muitas delas passam a maltratar seus filhos.
Além disso, temos no Brasil existem duas pontas de um problema, onde de um lado existem pais que não podem gerar filhos próprios e crianças que não tem pais. No meio dessas duas pontas existe uma enorme lacuna de espera, dificuldades e burocracia. Exemplificando, para adotar uma criança do sexo feminino, loira, branca, com até seis meses de vida, sem problemas físicos ou mentais, padrão de preferência entre casais pretendentes, a espera no estado de São Paulo pode chegar próximo há 10 anos.
Se por um lado existe esse problema social, na outra ponta estão os pais que almejam cuidar, educar e amar um filho. Esses pais muitas vezes passaram anos tentando ter um filho biológico e não conseguiram e muitas vezes nunca cogitaram a possibilidade de terem um filho adotivo.
Não existem campanhas contínuas que promovam a adoção de crianças, o que é triste, pois quando é veiculado um caso de abandono de bebê na mídia ou de crianças adotivas em novelas existe um aumento substancial de prospectivos pais buscando pelos processos de adoção.
Entre as crianças sem pais e os pais sem crianças existe um processo burocrático e moroso. Assim é lamentável que para adotar uma criança um prospectivo adotante tenha de esperar tanto tempo. O processo é tão demorado que muitas vezes os pais até perdem a esperança que vão conseguir adotar. O motivo da demora não é por que não existem crianças disponíveis, pois existem sim, mas essas crianças passam anos nos abrigos até estarem aptas para serem adotadas. Um pai ou mãe biológico que maltrata seus filhos muitas vezes só perde a guarda definitiva da criança depois de constatado que ela corre risco de vida e ainda assim tem amplo período para defender-se. Com isso a criança passa, muitas vezes anos no abrigo e só quando está bem mais velha é que começam a buscar por pais adotivos para ela. Como a faixa de idade preferida dos pais pretendentes são de crianças com até dois anos elas tem maior dificuldade de reingressar numa nova família, sendo que algumas delas não conseguem reingressar.
Mesmo depois que se inicia o processo de adoção a finalização do processo pode levar muito tempo o que deixa os pais adotivos muito ansiosos. Além de todos os cuidados que os pais devem ter com o seu novo filho, durante muito tempo convivem com a possibilidade, muitas vezes remota, de perderem seus filhos adotados para os pais biológicos.
Diante de tudo isso, podemos afirmar de forma concludente que adotar uma criança no Brasil não é uma tarefa nada fácil e requer paciência, amor e muita coragem. Muitas vezes ouço pessoas afirmarem que gostariam de adotar uma criança, mas não sabem nem por onde começar. Até para nós, que já estávamos muito bem informados antes de ingressar no cadastro para adoção levamos cerca de seis meses só para reunirmos documentos e sermos aprovados para entrarmos na fila de espera. Pais com poucas condições financeiras e pouco acesso a informação e auxilio de advogados têm mais dificuldades para conseguir a adoção legal. Apesar das dificuldades envolvidas para a adoção legal, sempre opte por ela, pois ela dá garantia futuras em relação a qualquer pleito de terceiros em relação à criança. Aceitar que alguém dê uma criança para criar sem que haja garantias legais é muito arriscado para os prospectivos pais, pois uma vez tendo estabelecidos laços amorosos a dor da separação pode ser irreparável.
Diante de todo esse cenário, só resta esperar por mudanças significativas nos vários aspectos que envolvem uma adoção, ou seja, o processo judicial, a posição da magistratura, o papel do Estado e a posição dos pais pretendentes, pois somente assim teríamos avanços significativos na melhoria desse problema social e na alegria de pais e filhos.





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