
Minhas duas jóias
OS DESAFIOS E AS ALEGRIAS DA ADOÇÃO
Um filho adot
ivo implica nos mesmos desafios que um filho biológico. Alguns pequenos detalhes p
odem tornar uma pouco mais difícil para os pais adotivos. Quanto menor for a criança adotiva, tanto menor serão os esforços para adaptação. Uma criança com dois anos, trás maiores traumas do que um recém nascido e estes tendem a aumentar conforme a criança for ficando mais velha. Com a Giovanna o fator idade não foi preponderante em relação à educação que tivemos de dá-la. Ela foi adotada quase recém nascida e isso contribuiu para educarmos ela conforme planejamos. No entanto, adotar crianças recém nascidas é uma tarefa quase impossível nos dias de hoje, portanto as chances aumentam para os casais dispostos a adotarem filhos com mais de três anos.
Enquanto estou escrevendo este capitulo o Claudio está fazendo um pouco mais de um ano que está conosco e também está completando quatro anos de vida. Olhando um ano atrás, a impressão que temos é que se passaram cinco anos, pois tantas coisas aconteceram neste último ano que não parecem que foi só um. Tivemos muitas dificuldades de adaptação com a vinda do Claudio, não por culpa dele, mas porque uma criança com três anos e tão carente de carinho que exige muito mais dos seus pais adotivos. Assim os pais em especial a mãe se sente muito sugada. Seria como se ele quisesse compensar a falta de uma mãe nos seus primeiros três anos de vida em apenas um ano.
Ao que parece o sonho do Claudio era ter uma mãe, e provavelmente ele acha que a mãe é somente dele. Isso esgota um pouco minha esposa, pois às vezes até a sua privacidade é limitada, pois ele quer passar a maior parte do tempo ao lado dela. Logo no começo, passamos meses sem poder ter tempo para sairmos sozinhos e o dia que programamos fazer um passeio como casal ele começou a gritar pela mamãe quando percebeu que sairíamos. Aquilo partiu meu coração, pois fiquei com lembrei do passado dele e desistimos de sair.
No entanto, aprendi que independentemente das necessidades de cuidados dos filhos, quer sejam eles biológicos ou adotados, os casais devem preservar um tempo para ficarem ou fazerem passeios a sós. Se dedicarmos somente nosso tempo e esforços pelos nossos filhos, as relações entre os casais podem ficar afetadas, por isso sempre programamos fazermos programas sozinhos como casal. Isso contribui para mantermos a unidade, o amor e a chama do casamento. Os filhos crescem muito rápido e é preciso equilibrar o tempo gasto com todos os membros da família para que todos possam derivar de proveito.
Criar dois filhos com idade tão próxima é um desafio dobrado. É comparável com a criação de gêmeos, pois ambos têm trabalho semelhante. Estão na mesma classe, tem e mesmo tamanho e brincam sempre juntos. No entanto, as diferenças entre eles são evidentes. Fisicamente eles parecem muito um com o outro, tanto que quando andam juntos no shopping, não raro as pessoas nos perguntam se são gêmeos. Por outro lado, eles são bem diferentes um do outro, sendo que os horários de acordar e dormir, personalidade e inteligência desenvolvida. Do ponto de vista do desenvolvimento social, a Giovanna que foi criada desde pequena apresentava um avanço em relação ao Claudio, o que é justificável, pois quanto mais tempo a criança permanecer no abrigo tanto mais atraso normalmente ela apresentará. Mas, um ano após a adoção, o Cláudio é outra criança, tendo feito um avanço significativo no desenvolvimento social e afetivo, tendo aprendido a dizer “eu te amo” e compreendido o que é ser amado.
Neste respeito, os pais adotivos desempenham um papel fundamental no auxilio da criança. Como a criança tem carência afetiva, é comum que ela tenha dificuldades de expressar afeto também. Seria como se ela não soubesse o que é amar um pai e mãe. Os pais precisam construir essa capacidade na criança com ações que a demonstre o que é amar. Por abraçarem, conversarem, brincarem e gastarem muito tempo com eles e acima de tudo por não terem expectativas exageradas sobre o que eles podem oferecer, com o tempo eles desenvolverão suas capacidades afetivas. Uma criança que nunca recebeu um afeto materno, muito provavelmente levará certo tempo para agradecer através das suas ações e palavras o que fazemos por ela como seus pais adotivos.
Do mesmo modo, a insegurança da criança é muito comum. Se elas foram vítimas de abandono, elas tendem a sentirem enorme medo de serem novamente abandonadas. Precisamos inculcar na mente delas que a partir de agora elas tem um família e podem ter a certeza de que essa família é duradora. Assim, eu defendo a idéia que o casal deve estar plenamente estruturado no casamento antes de adotar uma criança, pois permitir que uma criança que já foi abandonada tenha de conviver com uma família partida pelo fim do casamento é muito triste. Pequenas ações e palavras podem ajudar na construção dessa segurança na criança. Os pais podem explicar que terão de sair, mas voltam para casa e ao voltarem eles reafirmam para a criança que sempre voltam. Devem também afirmar que estão muito felizes por eles serem nossos filhos, pois isso reafirma o amor que desenvolvemos por eles. Por fim, acho importante conversar a respeito do tempo que a criança passou no abrigo, que em alguns casos duraram muitos anos, e assim explicar para ela que isso já faz parte do passado.
Nos dois processos de adoção nossos filhos não tiveram nenhuma dificuldade de adaptação. Confesso que soa muito estranho receber uma criança em nossa casa e apresentar-lhe a partir daquele dia seu novo quarto, banheiro e sua nova família. Mas, do ponto de vista de uma criança que nunca teve nada na vida, qualquer coisa que oferecemos, muito provavelmente é maior do que já lhe foi oferecido na vida até então. Portanto, as crianças quando adotadas não tem tanta dificuldade de adaptar-se a sua nova família.
Talvez a maior dificuldade se dê em casos onde há separação entre irmãos que são adotados por famílias diferentes. Nestes casos os irmãos têm dificuldades de entenderem porque todos não podem ir para a mesma família. Isso ocorreu no nosso caso, pois nosso segundo filho irmãos que foram adotados por outro casal. Como lidar com tal situação? Bem, cada casal deverá definir a melhor alternativa para a criança, mas no nosso caso decidimos que ele poderia ter contato com os seus irmãos quando quisesse, mas sempre ressaltando que cada um tem agora a sua própria família conforme já mencionei anteriormente. Assim ele recebe visitas, marca encontros e conversa por telefone com seus irmãos quando possível. Lembro-me que em uma ocasião quando o repreendemos por algo errado que ele tinha feito ele virou para nós e disse que ia para a casa da irmã dele. Prontamente, peguei algumas roupinhas dele e o peguei pelo braço e disse: Então vou te levar para a casa da sua irmã. Na escada ele começou a chorar e a pedir desculpas. Bem, nem preciso dizer que foi a última vez que fez isso. Apesar de saber que ele já sofreu muito na vida, não posso permitir que ele diga e faça o que acha que pode fazer, por isso, temos de deixar claro para os filhos que quem manda são os pais.
O processo mais penoso de adaptação numa adoção é dos pais adotivos. Em geral não há muito tempo para se preparar para a criação de um filho como ocorre quando uma mãe engravida e passam-se cerca de nove meses até o parto. No caso da nossa primeira filha, tivemos 36 horas para nos tornamos pais, o que confesso que foi uma mudança radical em nossas vidas. Minha esposa, por exemplo, teve de deixar o serviço de um dia para o outro e eu tive de mudar toda a minha rotina que envolvia uma carga excessiva de trabalho para outra com mais tempo para a família. Como não tínhamos experiência nenhuma com criança, de um dia para o outro eu estava fazendo mamadeira e trocando fraldas. Costumo dizer que eu dormi num dia e no outro acordei pai. Quando chegamos à nossa casa, nós nem tínhamos um quartinho de bebê. Tivemos de comprar tudo em um fim de semana, incluindo o preparo de enxoval que começou no dia seguinte que a adotamos. Como nossa filha apresentava um quadro avançado de desnutrição ela tinha peso e corpo de recém nascida aos cinco meses de idade, mas nos primeiros dois meses ganhou 75 gramas por dia em média, o que fez com que as suas roupas fossem perdidas em apenas alguns dias. Ficava impressionado de ver minha filha mamar uma mamadeira a cada duas horas de tanta fome que ela tinha. Aliás, saber que ela passou tanta fome como passou nos seus primeiros meses de vida ainda me emociona.
Quando olho para meus filhos noto que muitas coisas continuam iguais de quando os adotamos. Meu filho quando chora, faz exatamente como fazia quando o conhecemos, como se não tivesse perdido suas origens. Já minha filha faz o mesmo biquinho de quando chorava no tempo em que ainda passava fome. Essas pequenas coisas servem para recobrar na minha mente as origens deles e lutar para dar a eles um futuro bem diferente do que eles teriam sem que nós tivéssemos adotado-os.
Quando adotamos o nosso filho ficamos um pouco perdidos em relação a pequenos detalhes da nossa rotina e intimidade. Ficávamos por exemplo preocupados se podíamos chamar a atenção dele quando fazia algo errado e até se podíamos trocar de roupa em sua frente. Mas até nisso ele foi maravilhoso conosco. Para ele as coisas pareciam tão normais que passamos a enxergar que muitas coisas eram na verdade “neuras” de nossa cabeça que não o preocupava. Assim, a melhor coisa a fazer é ser o mais natural possível.
O desafio de adotar, criar, educar e construir um futuro de uma criança não é uma tarefa fácil de alcançar. Mas se por um lado o desafio é grande, as alegrias são ainda maiores. Sem se aperceber disso, nossos filhos nos dão enormes alegrias através de gestos, olhares e pequenas palavras. Quantas vezes ouvi frases dos meus filhos como: “Pai te amo tanto que até dói meu coração”, “Pai, você é maravilhoso” e assim vai.
Olhando para tudo aquilo que aprendi com meus filhos, sinto que tenha ganhado mais por tê-los adotados do que eles ganharam por me ter como pai. Observar o progresso deles em todos os sentidos é mais do que gratificante. Isso nos engrandece como pessoa, pois nos dá a certeza de dever cumprido. Não sei quais seriam as circunstâncias que estariam no momento se não os tivéssemos adotados. Também não sei como seria minha vida hoje também sem eles, mas tenho certeza de que eles preenchem minha vida mais que tudo.
Nunca tive um filho biológico e, portanto, não sei descrever as diferenças entre o biológico e o adotivo, mas sei que nem sempre um filho biológico é uma escolha. Muitas mães simplesmente engravidam por acidente ou descuido e tem de cuidar dos seus filhos depois que nascem. Já um filho adotivo é uma escolha. Podemos decidir se vamos ou não tê-lo e mesmo depois de convidados a conhecê-los temos a opção de decidir entre ficar ou não com ele. Em minhas idas e vindas nos abrigos de crianças tive a oportunidade de conhecer crianças de três anos onde mais de dez pais visitaram a convite do fórum e decidiram não adotá-los. Até descobri que os responsáveis dos abrigos muitas vezes não dizem que determinada criança foi acompanhada por outros casais anteriormente para não deixar os pretendentes indecisos. De qualquer modo, a adoção é uma opção e, portanto torna a decisão como um ato muito nobre.
Quando penso nas circunstâncias em que conseguimos adotá-los penso que fomos privilegiados, pois além de duas crianças maravilhosas, não tem nenhum problema de saúde salvo aqueles comuns das crianças como alergias, por exemplo. Nem sempre as coisas são assim, pois normalmente as crianças necessitam no mínimo de cuidados psicológicos por todos os fatores que já citei anteriormente. Ainda assim, os relatos dos pais adotivos superam em muito os desafios enfrentados na adoção.
Acredito que nossos filhos quando tiverem idade para terem suficiente maturidade reconhecerão tudo àquilo que fizemos por eles, mesmo assim faz parte do nosso projeto de educação enfatizar isso para eles. Procuro por exemplo levá-los em locais onde vivem pessoas de baixíssima renda e mostrar a eles o outro lado da vida para que não tenham a impressão que o mundo gira em torno deles. Em certa ocasião nosso filho fez certos comentários na escolhinha sobre os brinquedos que tinha e o quartinho dele. Prontamente o corrigimos para que pudesse entender que o fato de ter tudo o que tinha não o tornava diferente dos seus coleguinhas.
Nossos filhos crescem muito rápido, portanto os pais devem aproveitar o tempo livre com seus filhos e assim não terem arrependimento de terem renegado-os a segundo plano. O tempo vai e não volta mais, assim àquilo que não vimos passar ou que deixamos de registrar, simplesmente se perde e não se recupera mais. Diante disso, procuro aproveitar ao máximo o tempo livre que tenho com eles, nem que seja para ficarem do meu lado assistindo TV.
Um dia quando minha filha ainda era bem pequenininha eu fiz um poema para ela na qual acredito que representa um resumo de tudo aquilo que sinto em relação às alegrias que meus filhos, na qual compartilho com vocês e termino esse livro:

Eu e meus filhos
O PAI ADOTIVO
Sempre pensei que todos os dias podem ser apenas um dia como qualquer outro, mas um telefonema podia mudar tudo, aliás, não só um dia, mas todos os dias que se seguiriam então.
Sempre pensei que a oportunidade surgiria no tempo certo. O que não pensei é que junto com ela surgiriam também incertezas e a sensação de não se saber mais nada sobre o que pode vir a acontecer.
Sempre pensei que oito anos foram uma espera longa para um sonho, mas descobri que um único dia pode parecer mais longo do que tantos anos.
Sempre pensei que objetivo é determinação, e determinação é coragem, mas descobri que coragem é tudo que se precisa num momento desse.
Sempre sonhei com o dia em que veria meu filho nascer. Mas o que não sabia era que um filho pode nascer para um pai já tendo cinco meses.
Sempre pensei sobre como seria passar nove meses treinando sobre come ser um tornar-se um pai, mas o que eu não sabia é que se pode acordar um dia e descobrir que já é pai.
Sempre pensei que existia um manual sobre o que um pai deve fazer, mas descobri que o manual está dentro de nós mesmos e que um dia simplesmente sabemos tudo o que deve ser feito.
Sempre pensei que chegaria o dia em que seríamos apresentados, o que não pensei é que uma frase ecoaria na minha mente sem que pudesse esquecer: “E essa é sua” Foi nesse momento que compreendi que tudo realmente tinha mudado e que toda a espera fez sentido.
Sempre pensei sobre como as pessoas são engraçadas. Todos olham para você e pensam que sua vida é perfeita e que não lhe falta nada. Pensam que dor sente somente quem perdeu e não quem nunca teve. E assim deixam de enxergar o vazio dentro daquele que simplesmente quer ouvir: “papai”.
Sempre pensei que na vida a todo o momento tiramos novas lições. Estava certo, pois:
- Aprendi que o filho está no coração
- Aprendi que se pode passar o dia todo pensando simplesmente no momento de chegar em casa e ver um sorriso.
- Aprendi que não existe esforço que não valha a pena.
- Aprendi que por mais que imaginemos que amamos alguém, notamos que surge alguém que amamos ainda mais.
- Aprendi que a adoção não é um gesto de amor para uma criança e sim o gesto de amor de uma criança para com seus pais.
- Aprendi, por fim, a maior de todas as lições, de que não fui eu que adotei a Giovanna e o Claudionho como filhos e sim ela que me adotaram como pai.