LIVRO PAI ADOTIVO

Introdução

Livro adoção

por Anderson Hernandes Batista

A vida de um pai adotivo

A adoção de uma criança pelo ponto de vista de um pai

1ª Edição



AGRADECIMENTOS

Não poderia deixar de agradecer primeiramente aos meus dois maravilhosos filhos que foram a inspiração para escrever esse livro.

Agradeço a minha esposa e companheira Ana que há doze anos está ao meu lado e que me ajudou a construir uma família tão linda.

A minha mãe e meus irmãos que amo demais e que participaram sempre dos nossos momentos felizes com nossos filhos.

Ao meu pai que nos deixou em 2004, mas que teve um enorme significado na minha vida e que infelizmente não pôde conhecer seus netos.

POEMA: “ANTES DE SER PAI”

Antes de ser pai eu dormia a noite inteira e nem sabia o quanto isso é tão importante.
Antes de ser pai eu não pisava nos brinquedos espalhados pela casa e tinha ciúmes das minhas coisas.
Antes de ser pai eu desfrutava do happy-hour no fim da tarde após um dia inteiro de trabalho.
Antes de ser pai eu raras vezes ia ao médico na calada da noite.
Antes de ser pai eu podia comer sempre que tinha fome,
Antes de ser pai eu nem conhecia uma história infantil.
Antes de ser pai eu não sabia que existiam backyardigans, Lasytown e Barney.
Antes de ser pai eu olhava os filhos dos outros e pensava como eles podem ser tão mal educados.
Antes de ser pai eu não imaginava que uma criança poderia ser tão inteligente e nem tampouco que elas pudessem ter sentimentos.
Antes de ser pai eu nunca imaginei que uma criança poderia me amar tanto apesar de todos meus defeitos como pai.
Antes de ser pai eu não sabia que alguém tão pequenino poderia trazer uma felicidade tão grande.

Anderson Hernandes

INTRODUÇÃO

Sempre pensei que poderia ajudar as pessoas a conhecer melhor os desafios e alegrias de adotar uma criança através do ponto de vista daquele que enfrentou muitos desafios para alcançar esse objetivo.
Assim, este livro faz parte de um projeto pessoal que visa através da minha própria experiência, informar e incentivar a adoção de crianças. Nele compartilho as alegrias e os desafios que tive nos últimos anos com a adoção de meus dois filhos.
Tenho dois filhos adotivos, um casal que hoje tem três e quatro anos respectivamente. A diferença de idade entre eles é de apenas sete meses, por isso consideramos o trabalho de criação deles é como o de criar irmãos gêmeos.
Apesar de nossos dois filhos não terem nenhum parentesco entre eles, pois vieram de pais biológicos diferentes, eles se parecem muito fisicamente, pois tem o mesmo tom de pele, cor de cabelo, altura, e são muito unidos.
No entanto, a personalidade deles é bem diferente e temos de educá-los de forma personalizada para atender as necessidades individuais de cada um.
Inúmeros casais sofrem com a impossibilidade de conceber um filho biológico, mas desconhecem como adotar uma criança ou tem medo de adotarem uma criança pensando que não terão os mesmos sentimentos que desenvolvemos por um filho biológico. Assim espero que por compartilhar as alegrias desses momentos tão maravilhosos que tenho passado com meus filhos possa auxiliar casais a tomarem a mesma decisão que tomamos e assim derivar da mesma alegria.
Para mim, dizer que adotei meus filhos seria uma injustiça com eles por todas as alegrias que eles me dão, portanto costumo dizer que eu é que fui adotado como pai, por isso o nome escolhido para esse livro.
Assim, espero que apreciem minha experiência e alegria, pois ela é apenas mais uma de milhares de pais que um dia tiveram a oportunidade de serem adotados por seus filhos.

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CAPÍTULO 1 – Minha Infância

And_siteMINHA INFÂNCIA

“A base de toda pessoa acontece na infância. Assim, por dedicarmos nosso tempo e esforço estaremos dando o melhor o futuro dele.”

Anderson Hernandes

Sou o irmão do meio de uma família de três irmãos, na qual nossa diferença de idade é de sete e nove anos respectivamente. Eu e meus irmãos tivemos uma infância normal, cheia de expectativas e uma criação e educação maravilhosa dos nossos pais.
Nunca tenhamos tido acesso a luxos que outras crianças tiveram, apesar de não nos faltar nada meu pai sempre economizava muito e isso refletia no entretenimento que tínhamos acesso, como vídeo game, bicicleta e outros.
Da minha infância me lembro muitos detalhes, até coisas que para nossos filhos hoje são coisas comuns, mas que me marcaram. Lembro-me, por exemplo, quando ganhei meu primeiro brinquedo que considerava realmente maravilhoso. Era uma caixa de Playmobil com 11 bonequinhos. Fiquei durante meses maravilhado com aquele brinquedo.
Lembro-me, também, da primeira vez que meu pai nos levou no Mc Donalds. Foi um acontecimento, tinha cerca de 10 anos e passei semanas programando aquele dia. Até aquele momento da minha vida eu nunca tinha ido lá, pois nosso pai não costumava sair para comer fora como é tão comum para nós hoje, até que um dia ele disse que nos levaria e levou. Até hoje me lembro com detalhes deste dia.
Meu pai sempre foi um exemplo para nós em muitos aspectos. O que mais vem a nossa mente é o fato de que sempre foi muito trabalhador e desde muito pequeno me encaminhou para começar a trabalhar. Ele dizia que o jovem tinha de começar a trabalhar bem cedo para ter responsabilidades e isso de certo modo me ajudou a ser muito precoce na vida. Aos 12 anos já realizava trabalhos informais e aos 14 anos já era registrado numa empresa como Office-boy.
A minha mãe, por outro lado, teve um papel fundamental na criação da nossa família, uma vez que ela passava a maior parte do tempo cuidando de mim e dos meus irmãos. Nossos valores e princípios foram bem moldados em conformidade com a educação recebida dela.
Sempre freqüentei favelas perto de casa e tinha alguns colegas que moravam nesses lugares, assim nunca tive problemas em estar em tais locais. Com isso, tive acesso a muitas famílias pobres que criavam seus filhos de forma muito precária e já naquela época tinha muita dó daquelas crianças.
Em 2004 nosso pai nos deixou vítima de um atropelamento. Hoje, enquanto estou escrevendo esse capítulo do livro está fazendo quatro anos que papai se foi e ainda sentimos muito a falta dele. Sinto muito também o fato de ele não ter tido a oportunidade de conhecer meus filhos uma vez que ele acompanhou nossa luta e espera para adotá-los. Nosso segundo filho nasceu antes de papai nos deixar, mas como só o adotamos anos depois ele nunca o conheceu.
Não tem como desconsiderar que aquilo que passamos na infância tenha um papel fundamental na nossa vida toda, por isso dou muito valor a infância dos meus filhos, pois isso será a base do futuro deles. Muito se fala sobre dar aos filhos a melhor educação por colocá-los nas melhores escolas, mas nada substitui o tempo que dedicamos a eles e o quanto conversamos com eles, assim, temos de dar nosso melhor nesse respeito.


CAPÍTULO 2 – Sonho de ter um filho

Eu e minha esposa

Eu e minha esposa

SONHO DE TER UM FILHO

Casei-me muito cedo, aos vinte anos de idade assim como quase tudo na minha vida foi muito precoce. Para muitas pessoas, casar cedo demais é um dos fatores que levam a  infelicidade no casamento, pois como o casal tem pouca experiência na vida, às dificuldades surgem e o casal tem maiores dificuldades de enfrentá-las. Mas este não foi nosso caso, até porque sempre apreciei compromissos e responsabilidades e tinha uma vida de casado normal, repleta de alegrias e bons momentos e de algumas dificuldades como qualquer outro casal normal tem.

Após alguns anos de casado, passamos a pensar na possibilidade de termos um filho. Como já tínhamos feito muitas coisas sozinhos, pensamos que faltava companhia e decidimos ela iria engravidar. Assim, interrompemos os meios contraceptivos que minha esposa usava e aguardamos que ela ficasse grávida. Ouvimos relatos que os efeitos do anticoncepcional pudessem durar vários meses, deste modo, mesmo depois de um ano, não estávamos alarmados com o fato de minha esposa não engravidar. Mas, passou-se muito mais tempo e a tão sonhada gravidez não veio e passamos a ficar muito apreensivos com a situação.

Depois de algum tempo, minha esposa passou a buscar explicações dos impedimentos da gravidez e assim realizou diversos exames para investigar as causas. Nenhum exame que ela realizou foi concludente para apontar os verdadeiros motivos e tomei a decisão que eu iniciaria a investigação.

Depois de realizar um exame descobri que tinha um problema nos meus espermatozóides que impediriam a fecundação. O médico indicou seria revertido com medicamentos e me prescreveu remédios e algumas recomendações. Mas o tempo foi passando e o resultado não veio a assim buscamos outros especialistas.

Toda vez que procurávamos outro especialista tínhamos de repetir alguns exames e isso tornava ainda mais moroso o tratamento. Uma coisa que ficou bem clara era que o problema estava em mim e tratar problemas de infertilidade no homem é muito mais difícil do que na mulher, pois os remédios disponíveis, muitas vezes a base de hormônio nem sempre dão resultados esperados.

Um erro inicial e muito comum entre pessoas que buscam tratamento sobre infertilidade é procurar médicos que não são especialistas em fertilização humana. Isso ocorreu até que um dia a minha esposa leu um livro de um dos maiores especialistas em reprodução humana do Brasil. Buscando a solução do problema entramos em contato com seu consultório e marcamos uma consulta com esse especialista. Esse profissional, muito atencioso por sinal, pediu novos exames e trinta dias após tínhamos o resultado dos exames e retornamos para uma nova consulta. Depois de ele avaliar os resultados ele nos deu uma noticia difícil, a de que nossas chances de minha esposa engravidar, mesmo pelas vias assistidas eram menores de 5%. Naquele momento caiu o mundo sobre nossa cabeça, saímos de lá arrasados e não conseguíamos entender como podia acontecer isso conosco, pois parecia que tínhamos uma vida muito feliz, apenas sentíamos que faltava a presença de um filho.

Como todos os outros médicos nos deram uma visão diferente da desse médico ficamos muito chocados com aquele diagnóstico, achando que ele estava errado, mas as explicações dele foram muito convincentes.

Lembro-me de diversas vezes de noite acordar sozinho e chorar na beira da cama devido à impossibilidade de ter um filho e ainda ser o responsável pelo problema. Essa decepção até desencadeou uma doença psicossomática na minha pele na qual passei por muitos meses tratando.

De modo similar, minha esposa também passou por um período difícil, ficou muito triste e quase entrou em depressão. Numa de nossas conversas sobre o assunto levantei a hipótese de pensarmos na adoção, mas ela simplesmente se revoltou com minha indicação. Seria como se eu tivesse proposto para que cometêssemos um crime juntos. Entendo como deve ser difícil para uma mulher não poder gerar um filho, bem como amamentar. A palavra filho está diretamente ligada à gravidez e não a criação dos filhos. Até mesmo os comerciais de TV sempre enfocam uma mãe amamentando, pois é isso que nos relembra a relação de pais e filhos. Diante disso compreendo como é que uma mulher se sente numa situação como essa.

Depois de algum tempo, um dia, a minha esposa acordou e disse: Vamos dar entrada nos papéis para a adoção. Bem, fiquei surpreso, pois fazia muito tempo que não falávamos no assunto, mas como a minha opção era pela adoção não hesitei e fui atrás dos procedimentos para o cadastro.

Antes de compartilhar como foi nosso processo de adoção vou comentar um pouco sobre a adoção no Brasil.


CAPÍTULO 3 – A adoção no Brasil

quadroadocaoA ADOÇÃO NO BRASIL

Aqueles que decidiram um dia adotar uma criança sabem que o processo de adoção não é uma tarefa nada fácil. São diversos documentos além de entrevistas e atestados médicos. Isso serve para selecionar candidatos capazes de suprir as necessidades de crianças cuja realidade, na maioria das vezes é bem diferente daquelas que são criadas por pais biológicos responsáveis.
Quando uma criança é disponibilizada para adoção, normalmente essa criança passou por diferentes fases que marcam a sua vida, independentemente de ela ser recém nascida ou não. Afinal por que estaria disponível para adoção se não fosse por problemas que ela tenha passado na sua vida? Portanto, abandono, rejeição, maus-tratos, violência doméstica, fome, agressão moral e violência sexual são algumas das coisas que ocorrem com essas crianças. Quando finalmente o poder público consegue retirar essas crianças dos seus lares, normalmente elas são entregues a instituições ou abrigos de menores, com o objetivo que fiquem por pouco tempo lá, aguardando até que sejam encaminhados para novas famílias que passaram pelo processo de cadastramento e aprovação do Fórum.
Os maus-tratos a essas crianças incluem dezenas de tratos absurdos para nós seres humanos normais compreendermos. Muitas crianças são vitimas de abusos físicos, verbais e sexuais. Os abusos físicos incluem agressões e torturas como queimar os filhos com cigarros, apertar dedos com alicates, espancamento e muito mais. Muitas crianças são mantidas em cárcere privado, por serem acorrentadas ou amarradas dentro de casa ou simplesmente deixadas sozinhas sem qualquer supervisão. Outras muito pequeninas vêem seus genitores manterem relações sexuais ou até mesmo são vitimas de abuso sexual por pais, padastros ou outros familiares.
Além disso, existem aquelas que são abandonadas em abrigos ou até mesmo sobreviveram a tentativa de assassinato de seus próprios pais.
As pessoas ficam horrorizadas quando algo assim é veiculado pela mídia, mas tais acontecimentos são muito mais comuns do que se imaginam. Basta uma olhada nos abrigos de crianças para encontrarmos outra realidade que inclui dezenas de crianças em tais situações. O mínimo que encontramos em tais abrigos são crianças que foram vitimas de abusos emocionais. Tais pais biológicos não têm a mínima noção de quão danoso é submeter crianças tão pequenas a tais abusos, muitas vezes comprometendo toda a vida delas. É por isso, muitas delas precisam de acompanhamento psicológico por longo período após a adoção.
O Brasil é um país em que existem grandes diferenças sociais. Assim, surgem famílias que tem padrão de vida bem abaixo da linha da pobreza. Simplesmente algumas crianças não têm o que comer. A baixa escolaridade aliada à pobreza que muitas famílias vivem simplesmente fez com que surgissem pais desinteressados ou sem condições para criar seus filhos. Assim, é comum vermos filhos que simplesmente vivem nas ruas ou tem pouca atenção e cuidados de suas famílias.
O Estado tem a obrigação social de cuidar das crianças e adolescentes, pois isso é garantido por lei. Mas a realidade é outra, pois não existe suficiente estrutura para cuidar de todas as crianças que vivem em condições subumanas. Com isso, quando uma família decide que não dará cuidados para seus filhos eles simplesmente não têm acesso para entregar seus filhos ao Estado e conseqüentemente muitas delas passam a maltratar seus filhos.
Além disso, temos no Brasil existem duas pontas de um problema, onde de um lado existem pais que não podem gerar filhos próprios e crianças que não tem pais. No meio dessas duas pontas existe uma enorme lacuna de espera, dificuldades e burocracia. Exemplificando, para adotar uma criança do sexo feminino, loira, branca, com até seis meses de vida, sem problemas físicos ou mentais, padrão de preferência entre casais pretendentes, a espera no estado de São Paulo pode chegar próximo há 10 anos.
Se por um lado existe esse problema social, na outra ponta estão os pais que almejam cuidar, educar e amar um filho. Esses pais muitas vezes passaram anos tentando ter um filho biológico e não conseguiram e muitas vezes nunca cogitaram a possibilidade de terem um filho adotivo.
Não existem campanhas contínuas que promovam a adoção de crianças, o que é triste, pois quando é veiculado um caso de abandono de bebê na mídia ou de crianças adotivas em novelas existe um aumento substancial de prospectivos pais buscando pelos processos de adoção.
Entre as crianças sem pais e os pais sem crianças existe um processo burocrático e moroso. Assim é lamentável que para adotar uma criança um prospectivo adotante tenha de esperar tanto tempo. O processo é tão demorado que muitas vezes os pais até perdem a esperança que vão conseguir adotar. O motivo da demora não é por que não existem crianças disponíveis, pois existem sim, mas essas crianças passam anos nos abrigos até estarem aptas para serem adotadas. Um pai ou mãe biológico que maltrata seus filhos muitas vezes só perde a guarda definitiva da criança depois de constatado que ela corre risco de vida e ainda assim tem amplo período para defender-se. Com isso a criança passa, muitas vezes anos no abrigo e só quando está bem mais velha é que começam a buscar por pais adotivos para ela. Como a faixa de idade preferida dos pais pretendentes são de crianças com até dois anos elas tem maior dificuldade de reingressar numa nova família, sendo que algumas delas não conseguem reingressar.
Mesmo depois que se inicia o processo de adoção a finalização do processo pode levar muito tempo o que deixa os pais adotivos muito ansiosos. Além de todos os cuidados que os pais devem ter com o seu novo filho, durante muito tempo convivem com a possibilidade, muitas vezes remota, de perderem seus filhos adotados para os pais biológicos.
Diante de tudo isso, podemos afirmar de forma concludente que adotar uma criança no Brasil não é uma tarefa nada fácil e requer paciência, amor e muita coragem. Muitas vezes ouço pessoas afirmarem que gostariam de adotar uma criança, mas não sabem nem por onde começar. Até para nós, que já estávamos muito bem informados antes de ingressar no cadastro para adoção levamos cerca de seis meses só para reunirmos documentos e sermos aprovados para entrarmos na fila de espera. Pais com poucas condições financeiras e pouco acesso a informação e auxilio de advogados têm mais dificuldades para conseguir a adoção legal. Apesar das dificuldades envolvidas para a adoção legal, sempre opte por ela, pois ela dá garantia futuras em relação a qualquer pleito de terceiros em relação à criança. Aceitar que alguém dê uma criança para criar sem que haja garantias legais é muito arriscado para os prospectivos pais, pois uma vez tendo estabelecidos laços amorosos a dor da separação pode ser irreparável.
Diante de todo esse cenário, só resta esperar por mudanças significativas nos vários aspectos que envolvem uma adoção, ou seja, o processo judicial, a posição da magistratura, o papel do Estado e a posição dos pais pretendentes, pois somente assim teríamos avanços significativos na melhoria desse problema social e na alegria de pais e filhos.


CAPÍTULO 4 – A decisão pela adoção

A DECISÃO PELA ADOÇÃO

É comum que casais que almejam adotar uma criança criem o estereótipo da criança perfeita. Assim, com isso em mente, visitam os abrigos e lá encontram dezenas de crianças com idade média de quatro anos, morenas, cabelos curtinhos (para evitar piolho) e sujas, pois afinal passam o dia brincando nos espaços de recreação desse locais. Muitas delas têm atrasos de desenvolvimento, pois não tem estímulos suficientes numa idade tão importante na vida. A carência delas é algo que se destaca, sendo que muitos até se assustam quando visitam os abrigos pela primeira vez com tantas crianças pedindo colo. Por essas e outras razões, muitos casais pretendentes, quando vêem essas crianças tem a impressão que nenhuma delas se encaixa nos seus padrões. Infelizmente isso atrapalha muito as possibilidades de felicidade entre pais e filhos adotivos, pois o estereótipo de criança perfeita é um erro que impede a felicidade.
Aqueles que adotaram sabem que a felicidade independente de raça, cor, idade e características físicas. Um mês depois de adotados e cuidados essas crianças em nada se parecem ao que eram, pois há uma transformação na vida delas que as tornam diferentes do que eram.
Assim, para adotar uma criança antes de tudo é preciso preparar o coração, porque como se diz eles serão filhos do coração. É preciso estar preparado para enfrentar desafios e lidar com incertezas. É preciso estar desprovido de altas expectativas e estar preparado para dar amor, muito amor, porque carência afetiva é o que mais elas têm.
Qualquer pai e mãe sabem que criar um filho é uma enorme responsabilidade e exige muita dedicação. Mas criar um filho adotivo requer ainda mais, pois a expectativa que se tem sobre os pais adotivos é muito maior e a carência afetiva das crianças é tanta que muitas vezes os pais se sentem sugados. Portanto, é preciso estar preparado para dar o seu melhor como pai e mãe.
Bem, quando tivemos nosso processo de cadastramento aprovado fomos informados que o processo de adoção para uma criança com as características físicas que pedimos levaria cerca de três anos. Procuramos não ser muito exigentes, pois isso poderia tornar o processo ainda mais moroso. Nesta época fazia cerca de oito anos que estávamos esperando pelo nosso filho e pensar que poderia levar mais três anos era algo que não nos agradava nem um pouco. Mas, não tínhamos muitas alternativas, portanto decidimos que iríamos esperar.
Em seguida comecei a me informar o máximo que podia sobre a adoção e pessoas que haviam adotado crianças. Acabei lendo vários blogs e conheci o relato de muitas famílias. Com isso, tomei conhecimento de relatos de pessoas que adotaram crianças fora do estado de São Paulo. Assim, iniciamos contatos com pessoas nos estados de Minas, Bahia, Maranhão e Rio Grande do Sul em busca de uma criança com menos idade e com disponibilidade de adoção imediata. A idéia era que se não conseguíssemos nós tínhamos a garantia de sermos chamados em São Paulo então não tínhamos nada a perder.
Algo muito comum é quando mães que não podem ou querem criar um filho, dêem ainda recém nascido para outra família. Isso às vezes ocorre de modo informal, sendo que muitos sequer regularizam a situação junto ao poder judiciário, o que poderia ocasionar na perda da criança posteriormente. Isso não era nossa opção para adoção, se fosse para adotar estávamos decididos a fazer isso de forma legal.
Neste tempo conhecemos algumas famílias que também adotaram crianças, pois tinham problemas semelhantes ao nosso. Numa ocasião recebemos uma ligação de que havia uma criança no interior de São Paulo que estaria disponível para ser adotada. Prontamente viajamos na madrugada do dia seguinte, e ao chegar lá descobrimos que a criança recém nascida era portadora do vírus HIV e sequer estava liberada pela adoção. Bem, nós não estávamos preparados para cuidar de uma criança com HIV e por isso desistimos dela.
Neste mesmo dia, passamos a manhã na cidade e conhecemos um abrigo que tinha diversas crianças e visitamos, sendo que lá conhecemos quatro irmãos compostos de três meninos e uma menina com diferença de idade de apenas um ano para cada uma delas, ou seja, uma escadinha de crianças.
Fomos até o Fórum e lá fomos informados que poderíamos adotar se aceitássemos todos os irmãos, pois o Juiz não aceitava separá-los. Achamos que seria demais para pais inexperientes e dissemos que não. Confesso que fiquei sensibilizado com aquelas crianças e estava propenso a aceitar o desafio. Mas criar quatro crianças sem nenhuma experiência anterior não é uma tarefa muito fácil e exige muito preparo e dedicação. Hoje tenho certeza que tomamos a decisão acertada. Alguns meses depois, o Fórum nos ligou oferecendo separar duas crianças, mas já havíamos adotado nossa filha.
A questão de separar ou não irmãos é um dos entraves que existe para que a adoção seja mais rápida. Como poucos estão dispostos a aceitar adotar mais de duas crianças, elas ficam lá aguardando outros casais ou a possibilidade de separar as crianças para diferentes casais. Foi exatamente o que ocorreu no caso daquelas crianças.
Fizemos diversas tentativas em locais distantes e próximos. Muitas vezes saí atrás de possibilidades que nos foram levantadas e iniciamos contatos com diversas pessoas em diferentes estados que nos conheciam e outras que não nos conheciam.  Em determinado período, iniciamos um contato no Estado do Mato Grosso. Esse contato foi indicado por uma tia da Ana que muito sensibilizada com nossa busca tentou nos ajudar. Ela estava até mais esperançosa que nós, pois para nós parecia ser um dos muitos contatos que fizemos. Tomamos conhecimento que uma mãe tinha três crianças em estado de maus tratos que estava prestes a perder a guarda. Como as crianças precisavam de cuidados imediatos eles buscavam um casal para cuidar de cada uma das crianças. O juiz aceitava separar as crianças o que para nós parecia algo quase impensado. Nosso contato, uma senhora que não conhecíamos, intermediou com o conselho tutelar os procedimentos para que pudéssemos ficar com uma das crianças e ainda nos perguntou com qual das três queríamos ficar. Estava muito fácil para acreditarmos que daria certo, mesmo assim optamos pela mais jovem delas, com meses de vida. Não tínhamos muitas informações, nem sequer conversamos com qualquer autoridade, mas fizemos o que nosso contato pediu e  uma declaração via fax onde indicávamos que aceitaríamos ficar com a criança menor nas condições que ela estava, que não era nenhum problema físico ou mental, mas precisava de cuidados imediatos. Pensando bem hoje, nem sei como é que aceitamos mandar o fax dessa carta, só sei que como estávamos tentando encontrar uma criança aquela foi uma das muitas tentativas.
Encaminhamos o fax com a declaração, recebemos a confirmação de recebido e não tivemos mais noticias e para falar a verdade, até perdemos esperança de receber resposta depois que passou um mês sem noticias.
Até que um dia, mais precisamente no dia 13 de Abril de 2005 recebemos um telefonema que mudou nossa vida. Mas antes de falar sobre isso quero voltar um ano no tempo.


CAPÍTULO 5 – Uma trajédia um ano antes

Eu e meu Pai a 14 anos atrásUMA TRAGÉDIA UM ANO ANTES

Era a manhã do dia 15 de Abril de 2004 e tudo parecia como um dia como qualquer outro. Estava trabalhando e cerca das onze horas e trinta minutos fui almoçar. Todos os detalhes do que aconteceu neste dia estão muito bem gravados na minha mente. Minha mãe havia deixado um recado para que retornasse uma ligação com muita urgência para ela e assim fiz assim que cheguei do almoço. Foi neste momento que ela falou: “Andy, o papai não voltou…”
Bem, para compreender o significado dessa frase, vou falar um pouco do meu pai. Ele nasceu em 1943 e em 2004 tinha 61 anos. Seu porte físico não coincidia com a sua idade, pois diariamente ele rodava cerca de 20 quilômetros de bicicleta. Por incentivo dele e para aproveitar os momentos junto com ele eu o acompanhava cerca de três vezes por semana. A semana de quatorze de abril foi uma semana atípica nos nossos exercícios semanais. Por um motivo sem explicação eu fui duas vezes sozinho de bicicleta naquele trajeto e na quinta-feira que comumente eu participava com ele acabei não o acompanhando e ele foi sozinho.
Nosso trajeto era feito numa rodovia próxima da nossa casa onde diversas pessoas faziam semelhante trajeto. E assim ele foi sozinho fazer o trajeto. Assim que ela me disse que o papai não voltou eu senti um enorme vazio dentro de mim e imediatamente tive a sensação que meu pai tinha morrido. Comecei a partir de então uma jornada de ligações para a empresa controladora da rodovia e para hospitais para tomar conhecimento se houve atropelamento na rodovia. Após cerca de trinta minutos recebi a informação de que aconteceu um atropelamento e a vitima havia sido levada para um hospital próximo. Larguei tudo e fui correndo para o hospital e após encontrar o médico confirmei que meu pai tinha falecido.
É incrível como sabemos que todos estão sujeitos ao imprevisto, mas como é difícil aceita-lo. Meu pai sempre foi um companheiro para mim e naquele momento estava vivendo um momento que há anos não vivia com ele, pois conversávamos muito e estávamos muito amigos. Várias incertezas me atormentaram durante muito tempo, como o fato de não ter tido contato com ele naquela semana e o modo como foi atropelado que nunca foi esclarecido. A morte é dura para todos nós, mas quando uma vida é interrompida por acidente ou outros fatores, a sensação que existe é que a dor é maior.
Hoje com o passar dos anos aprendemos a conviver com a falta dele. Minha mãe que parecia ser a pessoa menos capaz de lidar com tudo isso foi a que mais nos serviu de exemplo e admiramos muito ela.
De qualquer modo, todas as lembranças que guardo do meu pai são as mais positivas que espero levá-las aos meus filhos.


CAPÍTULO 6 – A ligação que mudou nossa vida

A LIGAÇÃO QUE MUDOU NOSSA VIDA

Conforme já dito anteriormente, no dia 13 de Abril de 2005 recebemos uma ligação que mudou nossa vida, exatamente dois dias antes de completar um ano do falecimento do meu pai. Naquele dia nosso contato me ligou e disse as seguintes palavras: Anderson, você precisa vir para o Mato Grosso hoje, a sua filha está te esperando no hospital. Bem, é muito difícil de explicar o que se passou pela minha cabeça naquele momento. Mas a única coisa que consegui fazer foi pegar o nome da cidade e dizer que não poderia viajar no mesmo dia, mas que no dia seguinte seguiria com o primeiro vôo para lá.
A adoção de uma criança nestas circunstâncias é atípica as circunstâncias normais dos processos de adoção. Normalmente, os pais pretendentes são chamados para conhecer a criança e iniciar uma aproximação para tomarem então a decisão se vão ou não candidatar a adoção da criança. No nosso caso, nós simplesmente recebemos uma ligação e tínhamos de decidir se íamos ou não. Não sabia o nome da criança, o estado de saúde, a idade dela ou demais informações. Sabíamos apenas que era uma menina de cerca de cinco meses que estava em estado de desnutrição, internada sobre cuidados médicos e não tinha nenhum problema físico ou grave de saúde.
Desliguei o telefone e saí para comprar passagem. No caminho liguei para minha esposa e disse: Ana, você está sentada? Senta, porque estou comprando passagem para viajarmos ao Mato Grosso buscar nossa filha. A Ana ficou simplesmente estática, sem ação.
Como não sabíamos qual seria o desfecho dessa história decidimos que não contaríamos para ninguém, nem para nossos pais. Apenas fizemos as malas, informamos que íamos viajar e fomos.
No dia seguinte tomamos o primeiro vôo e descemos na capital e posteriormente fomos para a cidade, que de tão longe que era só chegamos à madrugada do dia 15.

Gigi no 1º contato

Gigi no 1º contato

Fui recebido pelo nosso contato e fomos até o hospital. O hospital era muito precário, numa sala de aproximadamente trinta metros quadrados existiam cerca de dez mães com suas crianças. Naquele momento tive uma das cenas mais emocionantes da minha vida. Nosso contato nos levou ao bercinho de uma criança e quando nos aproximamos vimos um neném indefeso, com cinco meses de idade e pesando apenas 3.800 kg. Ela tinha um rostinho de fome, típico das crianças que conhecemos de países africanos, era tão leve quanto uma criança recém nascida, não tinha cabelo e apresentava uma aparência sofrida e estava só de fralda. Mas de tudo o que vimos para nós ela era lindinha. As palavras que ouvimos naquele momento ainda ressoam na minha mente: “E essa é sua filha”.
Aquela pessoa não tinha a compreensão do significado daquelas palavras, aquilo era a realização de um sonho e o fim de uma espera. Por alguns minutos fiquei olhado para o rostinho dela e me veio à mente que deveria registrar aquele momento e tirei uma foto no meu celular. Só assim as pessoas poderiam acreditar nas condições que ela estava. Durante alguns minutos minha esposa ficou segurando ela no colo e em seguida me deu para segurá-la. Olhamos bem o corpinho dela e vimos que ela estava bem, mas estava muito debilitada e com uma forte pneumonia.
No momento que a peguei no colo tudo mudou. É difícil de explicar, mas foi como se ela tivesse acabado de nascer e fosse minha filha biológica. Já não podia aceitar deixá-la ali desamparada. Seria como se ela tivesse sido encomendada especialmente para nós.
É difícil de explicar como essas coisas funcionam na mente de uma pessoa que adota uma criança, mas a sensação é como se ela sempre tivesse sido nossa filha desde que nasceu. Outra sensação bem atípica é o fato de que não tivemos tempo para nos tornarmos pais. Pais normais possuem nove meses para planejar cada detalhe, dos móveis às roupas do bebê. Até as roupinhas que o bebê sairá do hospital é planejado. No hospital a mãe e o bebê recebem visitas de amigos e vão para casa com cuidados pessoais. Bem, estávamos a milhares de quilômetros, num lugar que não conhecíamos, me tornando pai de um dia para o outro, pensando como faria para voltar para casa e levar um bebê que nem nome tinha.
Mas, mesmo com todas essas incertezas no dia seguinte saí cedo para as compras e passei a comprar tudo para um bebê. Apesar de ter cinco meses às roupinhas de recém nascido às vezes ficavam grandes demais. As pessoas me perguntavam por que o bebê tinha tão pouco peso e explicava de loja em loja. Após algumas horas de compras cheguei naquele hospital com tudo e lá permaneci por algumas horas esperando pela vinda da conselheira tutelar que iria nos dar maiores informações. Naquele momento começamos a ficar com medo, porque não existia qualquer garantia que poderíamos ficar com nosso bebê. Ela perguntou para nós se tínhamos certeza de que estávamos dispostos mesmos a ficar com o bebê e perguntei no meu intimo se ela não imaginava que tinha viajado tanto para buscar nosso bebê e ainda alguém nos perguntava se tínhamos certeza. Acho até que aquela senhora naquele momento não estava plenamente segura de que poderia contar com nossa vontade de adotá-la, mas fomos enfáticos e ela nos deu uma autorização de que podíamos ficar com o bebê.
Assinei os papéis e perguntei se naquele momento poderia tirá-la dali. Ela me olhou espantada e continuei explicando que tinha reservado um quarto em um hospital particular e para lá fomos, onde a bebê ficou mais dois dias.
Depois de alguns dias com o bebê decidimos o nome dela e passamos a chamá-la de Giovanna. Bem, assim que saímos do hospital passamos um medo enorme de perder a Giovanna. Não sabíamos como faríamos para trazê-la para São Paulo, pois o Fórum ficava a dezenas de quilômetros de distância. Procuramos alguns advogados e um deles nos atendeu muito bem e resolvemos contratá-lo. O primeiro passo era dirigir-se ao Fórum e assim marcamos um horário e assim fizemos. Chegando ao fórum, para nossa surpresa o juiz havia concedido guarda provisória da nossa filha e voltamos maravilhados com aquilo, pois nem acreditávamos que o juiz nos tinha dado a guarda dela. Tiramos uma cópia do processo e assim viajamos de volta para casa.
Foi somente quando tínhamos a certeza de que tudo estava encaminhado que ligamos para nossos parentes para dar a notícia. Todos ficaram felizes e surpresos e no dia seguinte estávamos de volta em casa.
Minha mãe tinha passado um ano muito difícil, como já disse antes. Além disso, como estava fazendo um ano que papai havia falecido era um momento ainda mais difícil. Sinceramente a julgar do que conhecia da minha mãe pensava que ela não seria capaz de conviver com a perda do meu pai, mas ela surpreendeu a todos e tem superado todos os problemas que passou.
Minha mãe foi a primeira pessoa que conheceu nossa filha quando voltamos para casa. Ela ficou mais de uma hora esperando nós no portão de casa até que chegássemos. Ela nem acreditava no que estava vendo quando viu ela e ficou muito emocionada com nossa filha.
Para nós foi um grande alívio quando finalmente chegamos em nossa casa, pois nos sentíamos protegidos da possibilidade de alguém ir buscar nossa filha de volta. Em pouco tempo as pessoas ficaram sabendo que tínhamos adotado uma menina e começamos a receber visitas. Até vizinhos que não tínhamos afinidade passaram a partir daquele dia a nos tratar diferente.
Mas tudo aquilo era apenas o começo.


CAPÍTULO 7 – Os primeiros anos com nossa filha

Ana e minha princesa

Ana e minha princesa

OS PRIMEIROS ANOS COM NOSSA FILHA

A nossa filha é uma criança incrível. Lembro-me que quando ela estava no hospital os médicos afirmavam que ela ficaria com alguma seqüela em virtude da desnutrição. Como aqueles médicos estavam enganados, pois ela é uma criança normal, tem três anos de idade e ao contrário da informação dos médicos ela apresenta um avanço em relação a outras crianças da idade dela do ponto de vista da comunicação. Ela consegue argumentar como uma criança bem mais velha e tem uma rapidez de raciocínio que surpreende a todos.
Decidimos que nossa filha chamaria Giovanna. É muito comum que os pais adotivos mudem o nome dos seus filhos. Nestes casos, a criança tem um nome em seus documentos e a chamamos de outro nome. Às vezes temos de dar algumas explicações, como quando a levamos para consulta médica e outros locais. Somente depois que o processo de adoção finaliza é que o juiz oficializa o cartório para efetuar uma nova certidão de nascimento. E com ela não foi diferente.
Durante muito tempo a Gigi teve problemas para o cabelinho dela crescesse e mesmo depois de ter engordado muito ela ainda era carequinha. Isso era um reflexo do enfraquecimento causado pela desnutrição. Hoje ela tem um cabelinho comprido, mas já se mostrou que vai dar muito trabalho com chapinhas quando ela se tornar adolescente. Hoje, no entanto, temos apenas de conviver com o choro dela toda vez que precisamos fazer as trancinhas no cabelo dela devido ficar embaraçado após o banho.
Desde pequena a Gigi já deu indícios que terá uma personalidade muito forte, pois ela tem opinião própria e é muito difícil de mudá-la. Com três anos ela já escolhe suas próprias roupas e decide com quem quer dormir. Mas apesar de ser assim, quando chamamos a atenção dela ela fica muito triste consigo mesma e prontamente pede desculpas para nós. Com freqüência faz perguntas se estamos felizes com ela, como que buscando aprovação pela filha que é.
Quando penso em todo o esforço que fizemos para adotar nossa filha sinto que faria tudo de novo. As alegrias que tivemos com ela não têm preço. Admiro muito ela que apesar de tão pequenina ela tem uma felicidade enorme. Até quando ela está doente ela olha para mim e diz que vai ficar boa logo. Só de pensar que mais um pouco ela não teria sobrevivido eu fico emocionado.
Com a Gigi aprendi que os laços consangüíneos não têm relação direta com a relação entre pai e filho. Apesar de ela não ter sido gerada por nós temos uma relação tão apegada que supera todas as minhas expectativas em relação a como seria ter um filho adotivo. Assim, só tenho a dizer que o privilégio da adoção é algo impar que pode transformar a vida de um casal.


CAPÍTULO 8 – A “Menina”

A "Menina" quando foi adotada

A "Menina" quando foi adotada

A “MENINA”

Desde que adotamos a Giovanna ela tem uma boneca de pano que dei de presente a ela e que recebeu o nome de “menina”. A “menina” é a filha dela. Tudo o que fazemos com ela, desde o carinho até a educação e disciplina ela transfere para a menina. Se dermos bronca na Gigi ela logo pede a menina e começa a chorar com ela.
Ela conversa muito com a menina, e a menina conversa muito com ela, claro que na voz de um terceiro que no caso sou eu. E ela conversa com a menina como se estivesse conversando com uma pessoa de verdade. Nunca podemos esquecer a menina. Um dia, estávamos viajando em Santa Catarina e por um descuido nosso  esquecemos a menina dentro do taxi. Ficamos desesperados, pois a Giovanna estava dormindo e quando acordasse iria procurar a menina. Ainda bem que encontrei o telefone do taxista e tive de pagar uma corrida de taxi para uma boneca, difícil de acreditar, mas a menina é quase uma pessoa.
Como percebemos que a Giovanna desenvolveu sentimentos de uma mãe em relação à menina passamos a usar a “menina” para muitas coisas. Assim, muitas vezes quando a Giovanna faz algo de errado e precisamos discipliná-la, colocamos a menina de castigo ao invés dela. Parece que dói na Gigi mais por ser a “menina” do que se fosse com ela própria.
Sempre tivemos a preocupação de como contaríamos para a Giovanna que ela foi adotada. Talvez seja difícil para uma criança entender essa situação de que não veio da barriga da sua mãe. Percebemos que a menina seria útil nessa tarefa. Assim, para fazer com que a Giovanna se familiarizar com a adoção nós passamos a transferir a história dela própria para a menina.

A "Menina" hoje

A "Menina" hoje

Começamos dizendo que a menina morava no Mato Grosso, que ela era bem magrinha e que um dia ela tinha ido até lá e adotou a menina e passou a cuidar dela. Fazia isso fazendo a voz da menina falando com a Gigi. Um dia a Giovanna perguntou onde tinha nascido e dissemos que foi no Mato Grosso, aí ela olhou para mim e disse que a menina também. Assim mostramos foto dela magrinha e ela trouxe rapidamente a imagem da menina para si mesma, o que facilitou a compreensão dela.
Bem, a menina já se acabou umas três vezes, assim ela já tem muitas irmãs gêmeas que auxiliam na tarefa de quando a “menina” oficial está secando no varal. De qualquer modo, já aprendi que viramos mesmo avós da “menina”.


CAPÍTULO 9 – Nosso 2º filho

Primeiro contato com nosso filho

Primeiro contato com nosso filho

NOSSO 2º FILHO

Era um dia de março de 2007. A Giovanna havia se desenvolvendo muito bem, tinha se desenvolvido física e mentalmente acima das nossas expectativas conforme já falamos. Estávamos muito felizes com tudo isso e até devido todo o trabalho envolvido na criação de filhos tínhamos optado por não adotar outro pelo menos por alguns anos. Mas, nosso cadastro em São Paulo continuava ativo e um dia recebemos uma ligação que mudou tudo isso. A assistente social nos informou que nossa vez na fila de espera chegou e que tinha um menino num abrigo próximo que poderíamos conhecer se desejássemos. Na hora simplesmente pensei em descartar, mas me deu uma curiosidade de conhecer aquela criança e sugeri a minha esposa de irmos lá sem qualquer compromisso. E assim fizemos…
Aqueles que já tiveram a oportunidade de visitar um abrigo de criança sabem como é difícil para os responsáveis por tais lugares lidarem com tantas dificuldades. Eles precisam de muita abnegação para poder atender as necessidades e as exigências legais de cuidados que devem prestar as crianças. Assim que se chega num local desses as crianças simplesmente vêem nos nossos braços pedem colo, carinho e tudo mais. Algumas se retraem, mas não são todas. Assim que chegamos, logo tínhamos duas crianças uma em cada braço e outras duas agarradas em cada perna.
De longe fomos informados sobre o nosso prospectivo filho era o menino de três anos, que havia sido abandonado e tinha outros irmãos já em fase de adoção. Aproximamo-nos dele, mas ele nem olhava para nós de tanta vergonha. Ficamos um tempo tentando arrancar dele um olhar, porém foi muito difícil. Na saída fomos informados que poderíamos voltar no dia seguinte se quiséssemos continuar com o processo de aproximação. E assim fizemos, voltamos durante vários dias seguidos e ele sempre ficava muito retraído e nem conversava conosco. Apesar de não conversar conosco, quando chegávamos falava que a mãe e o pai dele estavam chegando. Assim fomos criando vínculo com ele.
A forma como as outras crianças encaram um visitante que está fazendo aproximação em uma criança é interessante. Na segunda vez que fomos ao abrigo às outras crianças já falavam que éramos os pais dele. A vontade que eles têm de sair do abrigo é tanta que até mesmo as demais crianças apóiam a aproximação. Do mesmo modo que algumas apóiam outras têm ciúmes e começam a maltratar aquelas que estão em processo de aproximação. Existem aquelas que pedem que sejamos pais deles também.

Claudinho antes da adoção

Claudinho antes da adoção

O processo de aproximação pode levar pouco ou muito tempo de acordo com os fatores envolvidos. No caso de crianças com mais idade, normalmente estende-se por um período maior. Se os pais conseguirem ir todos os dias como foi nosso caso o processo torna-se mais rápido.
Dentro do abrigo a criança não tem absolutamente nada dela, pois tudo é coletivo. Se quisermos dar um brinquedo o ideal é levar o brinquedo e trazer de volta para a próxima visita, pois se deixar lá logo em seguida ele se perde. As roupas obviamente são passadas de criança para criança em conformidade com o crescimento delas. Já as crianças dependem muito das doações de pessoas para poderem comer coisas diferentes, assim coisas simples como pacotes de balas e pirulitos, gelatinas e outras sobremesas são sempre bem vindas.
Uma vez que aceitamos iniciar o processo de aproximação passamos a visitá-lo todos os dias e após duas semanas recebemos autorização para trazê-lo no final de semana. A Giovanna acolheu o irmão de forma surpreendente. No primeiro dia que foi visitá-lo ela até assustou ele de tanto que o abraçou. Ela o chamava de irmãozinho e fazia carinho nele. A presença dela ajudou muito ele, pois em casa ele tinha com quem brincar e para ela também foi excelente porque ela se tornou mais criança uma vez que ela convivia muito com adultos.
Após cerca de 40 dias entre idas e vindas no abrigo finalmente o juiz nos concedeu a guarda provisória do nosso filho, que passamos a chamá-lo de Claudio. Ele gostou do nome. Hoje, depois de pouco mais de um ano conosco, ele mudou muito em relação ao que era.
Aquela criança que quase não falava, tinha vergonha e era quieta em nada se assemelha ao que ele é hoje. Ele fala muito, tanto que às vezes temos de pedir para ele falar menos. É muito agitado, e dá um “baile” para dormir, pois quer aproveitar cada minuto para brincar.
Enquanto estou escrevendo esse capítulo o Claudio está com o pé engessado. Um portão caiu no pé dele enquanto brincava com o cachorro dele. Bem, o medido disse que ele teria de fazer repouso, mas o repouso só durou poucas horas. Depois disso ele começou a andar e hoje tá literalmente correndo de gesso. Desse jeito já descobrimos que nada segura ele.
Decidimos dar um cachorro de presente para os dois, mas foi o Claudio que gostou demais do Scooby, um labrador que hoje tem seis meses e mais parece um touro. Aliás, o cachorro fez muito bem para ele. Ele tinha muito medo de tudo e hoje ele está mais confiante e seguro. Ele deixa o cachorro morder ele e brinca demais com ele e sempre está próximo dele quando estamos em casa. Acho que para ele fizemos uma boa escolha. Já a minha filha não aprecia muito um cachorro lambendo ela.
Fico muito feliz de ter adotado o Claudio também, pois ele completou a família. Confesso que foi outro desafio a adaptação, mas a alegria que tenho de vê-los tão unidos é algo que supera tudo isso. Ele durante muito tempo apagou que um dia tinha vivido no abrigo. Quando mostrávamos as fotos, ele simplesmente perguntava onde era aquele lugar, mesmo depois de poucos dias que tinha saído de lá.
Um dia ele olhou para mim e disse que não gostava de morar naquele lugar. Diz que não gostava porque não tinha pai, nem mãe e nem tinha um quartinho dele. Bem, isso me surpreendeu, pois pensava mesmo que ele tivesse se esquecido do tempo que viveu lá, mas na verdade ele inconscientemente estava se defendendo daquele tempo.
Quando completou um ano que o adotamos, fizemos uma festinha para ele, semelhante a que fizemos para a Giovanna. Ele ficou muito feliz. Recebeu seus amiguinhos e seus irmãos biológicos. Até hoje ele pede que mostremos o vídeo da festinha dele.
Sempre o deixamos bem a vontade para poder conversar com seus irmãos biológicos quando ele quiser. Assim, de tempo em tempo eles se vêem e conversam por telefone. Mas explicamos sempre que cada um tem o seu papai e mamãe. Ele entende, e ficamos felizes com essa relação entre eles. Acho importante que ele mantenha o contato com eles, pois isso o deixa feliz.
Quando penso em todo o progresso que ele fez em relação ao período que o conhecemos e hoje fico muito feliz, pois temos realizado um bom trabalho como pais. Os sentimentos que ele demonstra como filho também é um reflexo de todo o amor que damos a ele. É claro que muitas vezes ficamos cansados com toda a rotina de criar duas crianças da mesma idade, mas como já salientado não temos o que reclamar, pois os benefícios superam em muito os desafios.


CAPÍTULO 10 – O preconceito

O PRECONCEITO

Infelizmente tenho de admitir que algumas pessoas tem preconceito com crianças adotivas. Sei que não é por maldade, mas para alguns parece que estamos criando um extraterrestre. Quando adotei o Claudio, nosso segundo filho, uma pessoa com quatro filhos me disse que admirava a coragem que eu tinha de adotar uma segunda criança. É engraçado, pois ela tinha quatro filhos e ninguém achava corajoso isso. Muitas vezes me perguntaram se eu não tinha vontade de ter um filho biológico, como se filho adotivo não fosse filho. Já me perguntaram várias vezes se eu não tenho medo de eles se revoltarem quando estiverem mais velhos. Bem, o que dizer para pessoas com pensamentos como esses? Prefiro ignorar.

Gigi e Claudinho

Gigi e Claudinho

O preconceito das pessoas em relação a crianças adotadas tem diversos motivos, na maioria das vezes equivocados. Muitos pensam que a criança pode ficar revoltada com os pais quando ficarem sabendo que não são filhos biológicos o que pode facilmente ser evitado por sempre contar a verdade a criança. Às vezes, o preconceito pode vir até mesmo de pessoas muito próximas como avós e tios, por exemplo. Quando dissemos que adotaríamos outro filho, me lembro que um parente achegado ficou muito preocupado e disse algumas frases negativas sobre nossa decisão. Hoje, sei que na verdade ele fez isso por desconhecer toda a situação envolvida e a forma como gosta do seu neto hoje só demonstra que tudo não passou de um comentário momentoso.
Acho um pouco engraçado que quando alguém sabe que você vai ter um filho biológico as pessoas elogiam e dizem coisas bonitas para a mãe e até dão parabéns por isso. Mas, o mesmo não ocorre com freqüência quando você diz para alguém que vai adotar uma criança. A pessoa, não raro, olha para você com espanto como se você tivesse acabado de dizer que decidiu fazer algo muito errado. As pessoas quase sempre falam coisas negativas e dizem o quanto é difícil adotar uma criança nesse país e perguntam por que eu não tentei fazer outros tratamentos para ter um filho biológico. Bem, imagine só se eu tivesse ouvido tais pessoas, hoje não teria minhas duas crianças em casa.
Por outro lado, quando você adota uma criança e fala isso as pessoas a reação é bem diferente do momento em que você apenas planejava adotar, pois normalmente recebemos muitos elogios e as pessoas se simpatizam com a situação. Muitos falam que gostariam de ter o mesmo privilégio. Elas olham para meus filhos e vêem que são duas crianças normais e felizes.
A opção pela a adoção, na maioria das vezes, é considerada uma alternativa para aqueles que não puderam conceber filhos biológicos. Confesso que discuti a primeira vez com minha esposa quando recebemos a notícia de que eu era estéril, mas me lembro muito bem de quando eu tinha uns 12 anos de idade e eu olhava para as crianças abandonadas e dizia a mim mesmo que um dia adotaria uma criança sem nunca imaginar que não poderia ter um filho biológico.
Outro segundo grupo de adotantes é composto por aqueles que já criaram filhos até esses se casarem e optaram por adotar uma criança depois que seus filhos biológicos deixaram suas casas. Estes pais muitas vezes chegam à conclusão que podem fazer muito por uma criança depois de estarem novamente sozinhos em casa.
Mas falta ainda desenvolver mais os grupos de pessoas que adotam crianças por opção e que não tem qualquer restrição para conceberem filhos biológicos. É por esses e outros motivos que afirmo que muita coisa ainda precisa ser feita para mudar todo o preconceito que existe.
Sempre defendi a adoção para todas as pessoas por explicar a elas como estão enganadas em relação aos conceitos errados sobre esse assunto. Na verdade, tenho um orgulho enorme de dizer que eles são adotivos e mostrar o quanto eles são alegres e felizes por terem uma família tão maravilhosa. Além disso, sempre falo para eles sobre o assunto, porque sou contra ao fato de esconder qualquer informação da criança e ela descobrir somente quando for adolescente. Precisamos criar nossos filhos adotivos com total transparência, pois isso vai ajudá-los a enfrentar quaisquer questionamentos no futuro.


CAPÍTULO 11 – Os desafios e as alegrias da adoção

Minhas duas jóias

Minhas duas jóias

OS DESAFIOS E AS ALEGRIAS DA ADOÇÃO

Um filho adotivo implica nos mesmos desafios que um filho biológico. Alguns pequenos detalhes podem tornar uma pouco mais difícil para os pais adotivos. Quanto menor for a criança adotiva, tanto menor serão os esforços para adaptação. Uma criança com dois anos, trás maiores traumas do que um recém nascido e estes tendem a aumentar conforme a criança for ficando mais velha. Com a Giovanna o fator idade não foi preponderante em relação à educação que tivemos de dá-la. Ela foi adotada quase recém nascida e isso contribuiu para educarmos ela conforme planejamos. No entanto, adotar crianças recém nascidas é uma tarefa quase impossível nos dias de hoje, portanto as chances aumentam para os casais dispostos a adotarem filhos com mais de três anos.
Enquanto estou escrevendo este capitulo o Claudio está fazendo um pouco mais de um ano que está conosco e também está completando quatro anos de vida. Olhando um ano atrás, a impressão que temos é que se passaram cinco anos, pois tantas coisas aconteceram neste último ano que não parecem que foi só um. Tivemos muitas dificuldades de adaptação com a vinda do Claudio, não por culpa dele, mas porque uma criança com três anos e tão carente de carinho que exige muito mais dos seus pais adotivos. Assim os pais em especial a mãe se sente muito sugada. Seria como se ele quisesse compensar a falta de uma mãe nos seus primeiros três anos de vida em apenas um ano.
Ao que parece o sonho do Claudio era ter uma mãe, e provavelmente ele acha que a mãe é somente dele. Isso esgota um pouco minha esposa, pois às vezes até a sua privacidade é limitada, pois ele quer passar a maior parte do tempo ao lado dela. Logo no começo, passamos meses sem poder ter tempo para sairmos sozinhos e o dia que programamos fazer um passeio como casal ele começou a gritar pela mamãe quando percebeu que sairíamos. Aquilo partiu meu coração, pois fiquei com lembrei do passado dele e desistimos de sair.
No entanto, aprendi que independentemente das necessidades de cuidados dos filhos, quer sejam eles biológicos ou adotados, os casais devem preservar um tempo para ficarem ou fazerem passeios a sós. Se dedicarmos somente nosso tempo e esforços pelos nossos filhos, as relações entre os casais podem ficar afetadas, por isso sempre programamos fazermos programas sozinhos como casal. Isso contribui para mantermos a unidade, o amor e a chama do casamento. Os filhos crescem muito rápido e é preciso equilibrar o tempo gasto com todos os membros da família para que todos possam derivar de proveito.
Criar dois filhos com idade tão próxima é um desafio dobrado. É comparável com a criação de gêmeos, pois ambos têm trabalho semelhante. Estão na mesma classe, tem e mesmo tamanho e brincam sempre juntos. No entanto, as diferenças entre eles são evidentes. Fisicamente eles parecem muito um com o outro, tanto que quando andam juntos no shopping, não raro as pessoas nos perguntam se são gêmeos. Por outro lado, eles são bem diferentes um do outro, sendo que os horários de acordar e dormir, personalidade e inteligência desenvolvida. Do ponto de vista do desenvolvimento social, a Giovanna que foi criada desde pequena apresentava um avanço em relação ao Claudio, o que é justificável, pois quanto mais tempo a criança permanecer no abrigo tanto mais atraso normalmente ela apresentará. Mas, um ano após a adoção, o Cláudio é outra criança, tendo feito um avanço significativo no desenvolvimento social e afetivo, tendo aprendido a dizer “eu te amo” e compreendido o que é ser amado.
Neste respeito, os pais adotivos desempenham um papel fundamental no auxilio da criança. Como a criança tem carência afetiva, é comum que ela tenha dificuldades de expressar afeto também. Seria como se ela não soubesse o que é amar um pai e mãe. Os pais precisam construir essa capacidade na criança com ações que a demonstre o que é amar. Por abraçarem,  conversarem, brincarem e gastarem muito tempo com eles e acima de tudo por não terem expectativas exageradas sobre o que eles podem oferecer, com o tempo eles desenvolverão suas capacidades afetivas. Uma criança que nunca recebeu um afeto materno, muito provavelmente levará certo tempo para agradecer através das suas ações e palavras o que fazemos por ela como seus pais adotivos.
Do mesmo modo, a insegurança da criança é muito comum. Se elas foram vítimas de abandono, elas tendem a sentirem enorme medo de serem novamente abandonadas. Precisamos inculcar na mente delas que a partir de agora elas tem um família e podem ter a certeza de que essa família é duradora. Assim, eu defendo a idéia que o casal deve estar plenamente estruturado no casamento antes de adotar uma criança, pois permitir que uma criança que já foi abandonada tenha de conviver com uma família partida pelo fim do casamento é muito triste. Pequenas ações e palavras podem ajudar na construção dessa segurança na criança. Os pais podem explicar que terão de sair, mas voltam para casa e ao voltarem eles reafirmam para a criança que sempre voltam. Devem também afirmar que estão muito felizes por eles serem nossos filhos, pois isso reafirma o amor que desenvolvemos por eles. Por fim, acho importante conversar a respeito do tempo que a criança passou no abrigo, que em alguns casos duraram muitos anos, e assim explicar para ela que isso já faz parte do passado.
Nos dois processos de adoção nossos filhos não tiveram nenhuma dificuldade de adaptação. Confesso que soa muito estranho receber uma criança em nossa casa e apresentar-lhe a partir daquele dia seu novo quarto, banheiro e sua nova família. Mas, do ponto de vista de uma criança que nunca teve nada na vida, qualquer coisa que oferecemos, muito provavelmente é maior do que já lhe foi oferecido na vida até então. Portanto, as crianças quando adotadas não tem tanta dificuldade de adaptar-se a sua nova família.
Talvez a maior dificuldade se dê em casos onde há separação entre irmãos que são adotados por famílias diferentes. Nestes casos os irmãos têm dificuldades de entenderem porque todos não podem ir para a mesma família. Isso ocorreu no nosso caso, pois nosso segundo filho irmãos que foram adotados por outro casal. Como lidar com tal situação? Bem, cada casal deverá definir a melhor alternativa para a criança, mas no nosso caso decidimos que ele poderia ter contato com os seus irmãos quando quisesse, mas sempre ressaltando que cada um tem agora a sua própria família conforme já mencionei anteriormente. Assim ele recebe visitas, marca encontros e conversa por telefone com seus irmãos quando possível. Lembro-me que em uma ocasião quando o repreendemos por algo errado que ele tinha feito ele virou para nós e disse que ia para a casa da irmã dele. Prontamente, peguei algumas roupinhas dele e o peguei pelo braço e disse: Então vou te levar para a casa da sua irmã. Na escada ele começou a chorar e a pedir desculpas. Bem, nem preciso dizer que foi a última vez que fez isso. Apesar de saber que ele já sofreu muito na vida, não posso permitir que ele diga e faça o que acha que pode fazer, por isso, temos de deixar claro para os filhos que quem manda são os pais.
O processo mais penoso de adaptação numa adoção é dos pais adotivos. Em geral não há muito tempo para se preparar para a criação de um filho como ocorre quando uma mãe engravida e passam-se cerca de nove meses até o parto. No caso da nossa primeira filha, tivemos 36 horas para nos tornamos pais, o que confesso que foi uma mudança radical em nossas vidas. Minha esposa, por exemplo, teve de deixar o serviço de um dia para o outro e eu tive de mudar toda a minha rotina que envolvia uma carga excessiva de trabalho para outra com mais tempo para a família. Como não tínhamos experiência nenhuma com criança, de um dia para o outro eu estava fazendo mamadeira e trocando fraldas. Costumo dizer que eu dormi num dia e no outro acordei pai. Quando chegamos à nossa casa, nós nem tínhamos um quartinho de bebê. Tivemos de comprar tudo em um fim de semana, incluindo o preparo de enxoval que começou no dia seguinte que a adotamos. Como nossa filha apresentava um quadro avançado de desnutrição ela tinha peso e corpo de recém nascida aos cinco meses de idade, mas nos primeiros dois meses ganhou 75 gramas por dia em média, o que fez com que as suas roupas fossem perdidas em apenas alguns dias. Ficava impressionado de ver minha filha mamar uma mamadeira a cada duas horas de tanta fome que ela tinha. Aliás, saber que ela  passou tanta fome como passou nos seus primeiros meses de vida ainda me emociona.
Quando olho para meus filhos noto que muitas coisas continuam iguais de quando os adotamos. Meu filho quando chora, faz exatamente como fazia quando o conhecemos, como se não tivesse perdido suas origens. Já minha filha faz o mesmo biquinho de quando chorava no tempo em que ainda passava fome. Essas pequenas coisas servem para recobrar na minha mente as origens deles e lutar para dar a eles um futuro bem diferente do que eles teriam sem que nós tivéssemos adotado-os.
Quando adotamos o nosso filho ficamos um pouco perdidos em relação a pequenos detalhes da nossa rotina e intimidade. Ficávamos por exemplo preocupados se podíamos chamar a atenção dele quando fazia algo errado e até se podíamos trocar de roupa em sua frente. Mas até nisso ele foi maravilhoso conosco. Para ele as coisas pareciam tão normais que passamos a enxergar que muitas coisas eram na verdade “neuras” de nossa cabeça que não o preocupava. Assim, a melhor coisa a fazer é ser o mais natural possível.

O desafio de adotar, criar, educar e construir um futuro de uma criança não é uma tarefa fácil de alcançar. Mas se por um lado o desafio é grande, as alegrias são ainda maiores. Sem se aperceber disso, nossos filhos nos dão enormes alegrias através de gestos, olhares e pequenas palavras. Quantas vezes ouvi frases dos meus filhos como: “Pai te amo tanto que até dói meu coração”, “Pai, você é maravilhoso” e assim vai.
Olhando para tudo aquilo que aprendi com meus filhos, sinto que tenha ganhado mais por tê-los adotados do que eles ganharam por me ter como pai. Observar o progresso deles em todos os sentidos é mais do que gratificante. Isso nos engrandece como pessoa, pois nos dá a certeza de dever cumprido. Não sei quais seriam as circunstâncias que estariam no momento se não os tivéssemos adotados. Também não sei como seria minha vida hoje também sem eles, mas tenho certeza de que eles preenchem minha vida mais que tudo.
Nunca tive um filho biológico e, portanto, não sei descrever as diferenças entre o biológico e o adotivo, mas sei que nem sempre um filho biológico é uma escolha. Muitas mães simplesmente engravidam por acidente ou descuido e tem de cuidar dos seus filhos depois que nascem. Já um filho adotivo é uma escolha. Podemos decidir se vamos ou não tê-lo e mesmo depois de convidados a conhecê-los temos a opção de decidir entre ficar ou não com ele. Em minhas idas e vindas nos abrigos de crianças tive a oportunidade de conhecer crianças de três anos onde mais de dez pais visitaram a convite do fórum e decidiram não adotá-los. Até descobri que os responsáveis dos abrigos muitas vezes não dizem que determinada criança foi acompanhada por outros casais anteriormente para não deixar os pretendentes indecisos. De qualquer modo, a adoção é uma opção e, portanto torna a decisão como um ato muito nobre.
Quando penso nas circunstâncias em que conseguimos adotá-los penso que fomos privilegiados, pois além de duas crianças maravilhosas, não tem nenhum problema de saúde salvo aqueles comuns das crianças como alergias, por exemplo. Nem sempre as coisas são assim, pois normalmente as crianças necessitam no mínimo de cuidados psicológicos por todos os fatores que já citei anteriormente. Ainda assim, os relatos dos pais adotivos superam em muito os desafios enfrentados na adoção.
Acredito que nossos filhos quando tiverem idade para terem suficiente maturidade reconhecerão tudo àquilo que fizemos por eles, mesmo assim faz parte do nosso projeto de educação enfatizar isso para eles. Procuro por exemplo levá-los em locais onde vivem pessoas de baixíssima renda e mostrar a eles o outro lado da vida para que não tenham a impressão que o mundo gira em torno deles. Em certa ocasião nosso filho fez certos comentários na escolhinha sobre os brinquedos que tinha e o quartinho dele. Prontamente o corrigimos para que pudesse entender que o fato de ter tudo o que tinha não o tornava diferente dos seus coleguinhas.
Nossos filhos crescem muito rápido, portanto os pais devem aproveitar o tempo livre com seus filhos e assim não terem arrependimento de terem renegado-os a segundo plano. O tempo vai e não volta mais, assim àquilo que não vimos passar ou que deixamos de registrar, simplesmente se perde e não se recupera mais. Diante disso, procuro aproveitar ao máximo o tempo livre que tenho com eles, nem que seja para ficarem do meu lado assistindo TV.
Um dia quando minha filha ainda era bem pequenininha eu fiz um poema para ela na qual acredito que representa um resumo de tudo aquilo que sinto em relação às alegrias que meus filhos, na qual compartilho com vocês e termino esse livro:

Eu e meus filhos

Eu e meus filhos

O PAI ADOTIVO

Sempre pensei que todos os dias podem ser apenas um dia como qualquer outro, mas um telefonema podia mudar tudo, aliás, não só um dia, mas todos os dias que se seguiriam então.

Sempre pensei que a oportunidade surgiria no tempo certo. O que não pensei é que junto com ela surgiriam também incertezas e a sensação de não se saber mais nada sobre o que pode vir a acontecer.

Sempre pensei que oito anos foram uma espera longa para um sonho, mas descobri que um único dia pode parecer mais longo do que tantos anos.
Sempre pensei que objetivo é determinação, e determinação é coragem, mas descobri que coragem é tudo que se precisa num momento desse.
Sempre sonhei com o dia em que veria meu filho nascer. Mas o que não sabia era que um filho pode nascer para um pai já tendo cinco meses.
Sempre pensei sobre como seria passar nove meses treinando sobre come ser um tornar-se um pai, mas o que eu não sabia é que se pode acordar um dia e descobrir que já é pai.
Sempre pensei que existia um manual sobre o que um pai deve fazer, mas descobri que o manual está dentro de nós mesmos e que um dia simplesmente sabemos tudo o que deve ser feito.
Sempre pensei que chegaria o dia em que seríamos apresentados, o que não pensei é que uma frase ecoaria na minha mente sem que pudesse esquecer: “E essa é sua” Foi nesse momento que compreendi que tudo realmente tinha mudado e que toda a espera fez sentido.

Sempre pensei sobre como as pessoas são engraçadas. Todos olham para você e pensam que sua vida é perfeita e que não lhe falta nada. Pensam que dor sente somente quem perdeu e não quem nunca teve. E assim deixam de enxergar o vazio dentro daquele que simplesmente quer ouvir: “papai”.
Sempre pensei que na vida a todo o momento tiramos novas lições. Estava certo, pois:
- Aprendi que o filho está no coração
- Aprendi que se pode passar o dia todo pensando simplesmente no momento de chegar em casa e ver um sorriso.
- Aprendi que não existe esforço que não valha a pena.
- Aprendi que por mais que imaginemos que amamos alguém, notamos que surge alguém que amamos ainda mais.
- Aprendi que a adoção não é um gesto de amor para uma criança e sim o gesto de amor de uma criança para com seus pais.
- Aprendi, por fim, a maior de todas as lições, de que não fui eu que adotei a Giovanna e o Claudionho como filhos e sim ela que me adotaram como pai.


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