Família

Onde está mamãe?

Essa reflexão é dedicada a todos os filhos que cuidam de suas mães com Alzheimer. *

Queria entender como mamãe foi ficando distante e deixei de perceber e ter certeza que ela ouvisse tudo que digo a ela.

Queria que ela compreendesse tudo o que sinto, desde a revolta a compaixão, cansaço ao afeto, da tristeza ao respeito.

Queria poder gritar naqueles momentos em que sinto uma enorme angustia dentro de mim, mas ao mesmo tempo me reprimo, pensando que simplesmente que devo isso a ela.

Queria ao menos que ela me olhasse, e ter a sensação de ser notada e não de ser ignorada.

Queria compreender o que passa lá dentro, saber se ela pensa, se ouve e principalmente se entende o quanto eu a amo.

Queria pelo menos entrar por um instante no mundo dela e assim poder entende-la melhor.

Queria ser respeitada e admirada pelo que faço e não que todos me olhassem e pensassem que faço apenas a minha obrigação.

Queria ter força para superar, não ter motivos para chorar e ver tudo isso passar.

Queria que mamãe visse tudo que aconteceu, quem chegou e quem se foi, quem cresceu e quem envelheceu e que as coisas não parecessem em vão para ela.

Queria ouvir apenas algumas palavras ou frases, coisas simples como até mesmo um simples “oi”.

Queria entender se ela sente dor, fome, tristeza, sofrimento e acima de tudo se sente o carinho que tenho.

Queria acordar e entender que foi apenas um pesadelo, que nada ocorreu e simplesmente esquecer todo o que sinto.

Queria tantas coisas e sei que no fundo nada disso é possível, por isso quero apenas lutar até o fim e ter a plena certeza, que quando mamãe for, não reste dúvida a ela, que dei o máximo de mim.

* Nota do autor:

Ainda que pessoalmente minha mãe não tenha sido acomedida com uma doença como o Alzheimer, escrevo empaticamente, homenageando meus parentes achegados que cuidam por anos de sua querida mãe.

Anderson Hernandes



Antes de ser pai

Antes de ser pai eu dormia a noite inteira e nem sabia o quanto isso é tão importante
Antes de ser pai eu não pisava nos brinquedos espalhados pela casa e tinha ciúmes das minhas coisas
Antes de ser pai eu desfrutava do happy-hour no fim da tarde após
um dia inteiro de trabalho
Antes de ser pai eu raras vezes ia ao médico na calada da noite
Antes de ser pai eu podia comer sempre que tinha fome
Antes de ser pai eu nem conhecia uma história infantil
Antes de ser pai eu não sabia que existiam backyardigans,
Lasytown e Barney
Antes de ser pai eu olhava os filhos dos outros e pensava como
eles podem ser tão mal educados
Antes de ser pai eu não imaginava que uma criança poderia ser tão
inteligente e nem tampouco que ela pudesse ter sentimentos tão lindos
Antes de ser pai eu nunca imaginei que uma criança poderia me
amar tanto, apesar de todos meus defeitos
Antes de ser pai eu não sabia que alguém tão pequenino poderia
trazer uma felicidade tão grande ao dizer a palavra pai.


Ser Mae

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Ser mãe é a essência da mulher e a realização do seu principal desejo.

Ser mãe é abdicar suas próprias necessidades em prol das necessidades de quem não tem como satisfazê-las.

Ser mãe é ficar acordada mesmo quando só se pode pensar em dormir e dormir quando se está sem sono só para servir de companhia.

Ser mãe é dizer não a si mesma numa espécie de auto-renegação dos seus próprios desejos.

Ser mãe é sorrir mesmo quando não se têm motivos para sorrir numa resposta automática ao sorriso de seu filho.

Ser mãe é compreender mais uma criança do que se é capaz de compreender-se a si mesmo.

Ser mãe é desistir dos seus próprios sonhos e adiar tantos outros em prol de um objetivo maior.

Ser mãe é sentir dor mesmo sem ter nada e desejar a todo o custo sofrer no lugar daquela que está sofrendo.

Ser mãe é emocionar-se de alegria mesmo no momento em que sente a dor incomparável da concepção.

Ser mãe é amar mesmo sem ter gerado e compreender que filho acima de tudo está no coração.

Ser mãe é não medir esforços, é derrubar barreiras e vencer os maiores obstáculos pelo bem daquele que nem ainda não pediu nada.

Ser mãe é reconhecer pelo olhar, pelo choro, pelo gesto, pelo sorriso e saber que pode ser reconhecida até pelas batidas do seu coração.

Ser mãe é prazerar-se por amamentar, como que compreendendo que isso representa a última parte de dentro de si que ainda poderá oferecer.

Ser mãe é suportar a própria dor, ainda que seja incapaz de suportar ver a dor de quem veio de dentro de si mesma.

Sim, ser mãe é tudo isso e muito mais. Tanto mais que seria impossível de expressar tudo o que significa. Mas, ainda que ser mãe seja um privilégio, ele foi concedido somente a aquelas que um dia nasceram mulheres.


O que papai me ensinou

Papai me ensinou a andar de bicicleta e me ajudou a levantar quando caí.

Papai me ensinou a jogar bola e torcer por um time.

Papai ensinou a soltar pipa e fazer rabiola.

Papai me ensinou a xingar o juiz quando me levou ao estádio de futebol.

Papai me ensinou a dirigir e mostrou como se lava meu carro.

Papai me ensinou a trabalhar e usar bem o dinheiro.

Papai me ensinou lutar e nunca destruir.

Papai me ensinou a amar e por isso amo meus filhos.

Papai me ensinou o que é ser exemplo mesmo que eu não sabia que era tão importante.

Papai me ensinou a ser responsável e nos torna tão valorizado.

Papai me ensinou a respeitar e por isso exijo respeito.

Papai me ensinou o que é a dor quando simplesmente se foi sem se despedir.

Papai me ensinou que é saudade,daquela que nunca se acaba.

Papai me ensinou o que é revolta, revolta por que meus filhos não conheceram o vovô.

Por fim papai me ensinou a essência do que sou e só sinto que não pude dizer isso a ele.


O que o casamento desfeito pode fazer compreender

Quantas vezes você suportou falhas e defeitos como que fazendo de conta que seu par era perfeito.

Quantas vezes você deixou a si mesmo de lado, seus sonhos, anseios e desejos para fazê-lo feliz.

Quantas vezes você ignorou a mentira, se deixando enganar-se e aceitando como verdade o que estava claro que era inverdade.

Quantas vezes você concedeu, mesmo que não devia conceder evitando assim conflitos desnecessários.

Quantas vezes você ficou quieto quando tinha razão para falar, pensando em não magoar.

Mas apesar de tudo isso, tudo chegou ao fim. E é neste momento que vem aquela sensação de vazio junto com a pergunta que ecoa de dentro do seu coração: E o que vou fazer agora?

Apesar de não saber o que fazer, você passa a compreender muitas coisas:

Compreende o perigo de permanecer dentro da zona de conforto, onde o dia a dia pode abalar o que parecia inabalável.

Compreende o que é acordar todos os dias sozinho e ter como companheiro um enorme sentimento de inutilidade e rejeição.

Compreende que esse mesmo dia a dia, pode ser a solução para a dor, dor que os outros não sabem como é sentir, mas que tentam de alguma maneira ajuda-lo a superar.

Compreende que é tênue a linha entre amor e ódio e entre paixão e a revolta.

Compreende que na vida temos muitas fases, umas boas e outras ruins, que iniciam e terminam rápidas e lentas, e que o casamento é feito de muitas delas, que podem ou não ser superadas.

Compreende que o tempo dói, mas somente ele pode ser força motivadora para reerguer.

Compreende que se pode ressurgir das cinzas, que se pode amar mais e que não deve amar ninguém mais do que si mesmo.

Compreende que se encontra muito mais motivação para aquilo que não se tinha antes, como a dieta que nunca continuou ou a academia que tantas vezes parou e entende que você é capaz de chegar muito mais longe do que imaginava chegar.

Compreende que tem de se apegar a algo, não importa se são os filhos, a carreira, ou os cuidados com sigo mesmo, mas o importante é encontrar um motivo para simplesmente continuar.

Compreende que na verdade não foi você não foi injustiçado e sim você que foi injusto consigo mesmo em achar que não era capaz de superar.

Compreende que existe um mundo muito maior do que imaginava, onde se têm muitos outros motivos para ser feliz.

Compreende que se pode voltar a amar e ser amado e desejar e ser desejado, e o que é melhor, muito mais do antes.

Por fim compreendemos a maior de todas as lições: Que ao contrário do que você imaginava ainda tem todos os motivos para ser feliz!


O Pai Adotivo

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Pai Adotivo

Pai Adotivo

O PAI ADOTIVO

Sempre pensei que todos os dias podem ser apenas um dia como qualquer outro, mas um telefonema podia mudar tudo, aliás, não só um dia, mas todos os dias que se seguiriam então.

Sempre pensei que a oportunidade surgiria no tempo certo. O que não pensei é que junto com ela surgiriam também incertezas e a sensação de não se saber mais nada sobre o que pode vir a acontecer.

Sempre pensei que oito anos foram uma espera longa para um sonho, mas descobri que um único dia pode parecer mais longo do que tantos anos.

Sempre pensei que objetivo é determinação, e determinação é coragem, mas descobri que coragem é tudo que se precisa num momento desse.

Sempre sonhei com o dia em que veria meu filho nascer. Mas o que não sabia era que um filho pode nascer para um pai já tendo cinco meses.

Sempre pensei sobre como seria passar nove meses treinando sobre como tornar-se um pai, mas o que eu não sabia é que se pode acordar um dia e descobrir que já é pai.

Sempre pensei que existia um manual sobre o que um pai deve fazer, mas descobri que o manual está dentro de nós mesmos e que um dia simplesmente sabemos tudo o que deve ser feito.

Sempre pensei que chegaria o dia em que seríamos apresentados, o que não pensei é que uma frase ecoaria na minha mente sem que pudesse esquecer: “E essa é sua” Foi nesse momento que compreendi que tudo realmente tinha mudado e que toda a espera fez sentido.

Sempre pensei sobre como as pessoas são engraçadas. Todos olham para você e pensam que sua vida é perfeita e que não lhe falta nada. Pensam que dor sente somente quem perdeu e não quem nunca teve. E assim deixam de enxergar o vazio dentro daquele que simplesmente quer ouvir: “papai”.

Sempre pensei que na vida a todo o momento tiramos novas lições. Estava certo, pois:

- Aprendi que o filho está no coração

- Aprendi que se pode passar o dia todo pensando simplesmente no momento de chegar em casa e ver um sorriso.

- Aprendi que não existe esforço que não valha a pena.

- Aprendi que por mais que imaginemos que amamos alguém, notamos que surge alguém que amamos ainda mais.

- Aprendi que a adoção não é um gesto de amor para uma criança e sim o gesto de amor de uma criança para com seus pais.

- Aprendi, por fim, a maior de todas as lições, de que não fui eu que adotei a Giovanna e o Claudio como filhos e sim eles que me adotaram como pai.

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