Reportagem DGABC sobre Adocao em 12.01.2008

Uma família de presente

Eliane de Souza
Do Diário do Grande ABC

O Dia das Crianças, comemorado hoje, pode ter diversos significados. Para alguns é sinônimo de presentes, principalmente brinquedos. Mas para outros é necessário apenas de afeto e de uma família. É o caso de quem espera anos na fila de adoção. No País há mais de 80 mil crianças e adolescentes à espera de uma família, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Um dos casos bem-sucedidos é o pequeno Rhanieri César Santana, 5 anos, que chegou à família da professora Sônia Regina Ribeiro Santana, de Santo André, com 15 dias de vida. Na ocasião, os quatro filhos de Sônia tinham entre 16 e 25 anos e a família ouviu várias críticas sobre o fato de ter mais uma criança: “É normal. Quem iria adotar um negro proveniente de família portadora do vírus HIV? A nossa sociedade ainda não está preparada para isso”, desabafa Sônia.

A vendedora Geane Júlio Ferreira, de São Bernardo, também optou por ampliar a família por meio da adoção. Durante quatro anos ela fez tratamento de fertilização, mas sem sucesso. Há dois anos e meio adotou a pequena Gabriela, 2 anos. “Se soubesse que adotar é tão gostoso nem teria tentado o tratamento”, confessa.

Embora a formação da nova família seja um presente tanto para os novos pais como para a criança, muitos casais mantêm a adoção em segredo. É o que confirma a assistente social e administradora do abrigo Lar Escola Pequeno Leão, de São Bernardo, Valéria Giolo Prado. “Porém, falar a verdade para o filho pode evitar conflitos.”

Desde os primeiros dias de vida, Sônia não teme contar a verdade para Rhanieri. Ela não tem medo de que o pequeno conheça a família biológica. “Se ele quiser, serei a primeira a procurar pela genitora.” Se depender de Geane, Gabriela não terá segredos. “Só estou esperando ela crescer mais um pouco para contar.”

ADAPTAÇÃO
Apesar da vontade dos pais, a adoção precisa de adaptação. A assistente social explica que o maior medo de quem adota é a rejeição por parte da criança. Assim, os casais pecam por excesso para agradar a todo custo no período de aclimatação. “Muitos pais criam expectativas e se aborrecem logo no primeiro conflito.” Para Geane, a realização do sonho veio seguida de depressão. “A doença estava encubada e desencadeou com a mudança de rotina. Mas meu maior estímulo para a cura é poder cuidar da minha filha.”

Por ter sido rejeitado ainda no útero, Rhanieri às vezes ignora a figura da mãe. “É como se eu fosse a madrasta e meu marido fosse o pai e a mãe dele”, conta Sônia. “Mas é gratificante aceitá-lo como ele é e saber que foi ele quem me escolheu”, finaliza.

Comportamento detecta risco de devolução

A devolução de crianças e adolescentes pelas famílias que as adotam é uma realidade mais comum do que se pensa. Pesquisa do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) mostra que é possível identificar nos candidatos a pais alguns fatores de risco de devolução.

A autora do estudo, a psicanalista Maria Luiza de Assis Moura Ghirardi, explica: “Alguns têm medo de que os parentes biológicos queiram reaver a criança e outros sentem culpa por achar que tiraram o filho de outra família”. É importante lembrar que o ato de adoção é irrevogável.

Maria Luiza explica que o fato de a criança ter outra origem é um dado que não poderá ser esquecido. “Diante de situação de conflito, um dos pais poderá ficar lembrando disso o tempo todo, como: ‘Eu tirei você de um lugar ruim’, ou ‘Esse seu sangue mau só pode ter vindo da sua família biológica’,” explica.

A especialista também alerta sobre riscos de adoção por parte de pessoas que estão bem economicamente e desejam adotar uma criança pobre com o objetivo de lhe oferecer boas condições de vida. “Muitas vezes esse sentimento de altruísmo esconde frustrações internas profundas e uma baixa auto-estima”, sinaliza.

A psicanalista reitera que o conjunto desses fatores de risco – e não apenas um deles isoladamente – é que vai indicar se existe a possibilidade de uma futura devolução.

Apoio é fundamental

Em datas comemorativas, não apenas brinquedos ou mesmo uma adoção efetiva pode ser o melhor presente para uma criança que vive em abrigo. Há a opção de se candidatar como família de apoio. São pessoas que, nos fins de semana e férias podem levar os pequenos – tanto os que estão para adoção quanto os que se encontram sob tutela por problemas em casa – para vivenciar um ambiente familiar.

Segundo Helma Ferreira de Souza, que há onze anos fundou o Lar Ebenézer, em Santo André, existem mais de mil cadastrados para prestarem esse tipo de ajuda voluntária. “Geralmente são pessoas que querem nos ajudar no trabalho de educar, mas em alguns casos já aconteceu até mesmo de sair adoção, já que se apegaram às crianças”, diz.

SEM CHANCE
Fernando de Souza, marido de Helma, afirma que o principal problema enfrentado por essas crianças, inclusive as que não estão para adoção, é que o Estado não presta o menor tipo de assistência para a família. “E quando elas são devolvidas, encontram uma situação até mesmo pior do que a que deixou.” Por isso, ter o mínimo de experiência em um ambiente saudável, para ele, ajuda muito.

Segundo Helma, esta é uma realidade da maioria das crianças: 70% das que passaram pelo abrigo voltaram para a família de origem. “Muitos que conhecemos reproduzem a história da mãe, que geralmente, também morou em abrigo”, relata Fernando.

Pai adotivo dá dicas sobre o processo

Incentivador da adoção, o consultor e autor Anderson Hernandes, de São Bernardo, baseia-se em sua experiência como pai para incentivar outros casais. Após adotar Giovanna, 3, e Cláudio, 4, ele se propôs a dar a palestra A Vida de um Pai Adotivo – Desafios e Recompensas da Adoção do Brasil, para orientar os interessados a entrar com um processo como este.

Segundo ele, este tipo de apoio disponibilizado no evento promovido pela GEAA (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de São Bernardo do Campo) é essencial para realizar o procedimento de forma correta e ajudar a ter paciência diante de toda burocracia. “O grande problema dos pais também é todo trabalho emocional que tem de ser feito antes de receber as crianças em casa e depois”, acrescenta.

Essa estrutura emocional, segundo Anderson, é dada durante as reuniões de grupos de apoio formados pelo fórum e orientados por especialistas, em que os pais aprendem a lidar com os conflitos. “Às vezes o processo pode durar dois, três anos e neste período os pais ficam inseguros, o que pode resultar em problemas. Mas eles têm de ficar certos de que vale muito a pena.”

Durante a palestra o consultor expõe sua ‘experiência de sucesso’. Depois de dez anos de casamento e tratamentos para gravidez que não deram resultado, Anderson e sua mulher resolveram adotar um filho. “Entramos na fila nacional e pouco tempo depois recebemos uma ligação do Mato Grosso. Tivemos de ir imediatamente para lá”, conta.
Foi assim que o casal conheceu Giovanna, que estava em um estágio avançado de desnutrição. Um ano e meio depois a ligação veio de mais perto, do Fórum de São Bernardo. “Soubemos da história do Cláudio, que estava em um abrigo e já tinha três anos.”

Anderson escreveu até um livro, que pode ser baixado gratuitamente do site www.andersonhernandes.com.br. Na obra relata sua experiência e os procedimentos para quem quer adotar uma criança.

Regras de adoção

Quem pode adotar? Homens e mulheres, não importa o estado civil, desde que sejam maiores de 18 anos, 16 anos mais velho do que o adotado e ofereçam um ambiente familiar adequado.

Quem pode ser adotado? Crianças e adolescentes com até 18 anos, cujos pais são falecidos ou desconhecidos, tiverem sido destituídos do poder familiar ou buscarem o Judiciário para entregar seu filho para adoção. Maiores de 18 também podem ser adotados, mas o processo depende da assistência do poder público.

Procedimentos para uma adoção: o interessado deve se dirigir ao fórum de sua cidade ou região, com seu RG e um comprovante de residência. Assim, obterá as informações iniciais para dar continuidade ao processo.

O que é um ambiente familiar adequado? Que não tenha pessoas dependentes de álcool e drogas.

Por que o processo é tão demorado? Grande parte dos candidatos a pais adotivos manifesta o desejo de adotar bebês meninas e brancas, sendo que a maioria das crianças nessa situação não têm essas características. Além disso, a proporção de crianças abrigadas em condições legais para adoção é reduzida.

O que é um abrigo? É uma modalidade de acolhimento institucional para crianças e adolescentes que não podem ficar com seus pais, provisoriamente ou em definitivo.

Uma família de presente

O Dia das Crianças, comemorado hoje, pode ter diversos significados. Para alguns é sinônimo de presentes, principalmente brinquedos. Mas para outros é necessário apenas de afeto e de uma família. É o caso de quem espera anos na fila de adoção. No País há mais de 80 mil crianças e adolescentes à espera de uma família, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Um dos casos bem-sucedidos é o pequeno Rhanieri César Santana, 5 anos, que chegou à família da professora Sônia Regina Ribeiro Santana, de Santo André, com 15 dias de vida. Na ocasião, os quatro filhos de Sônia tinham entre 16 e 25 anos e a família ouviu várias críticas sobre o fato de ter mais uma criança: “É normal. Quem iria adotar um negro proveniente de família portadora do vírus HIV? A nossa sociedade ainda não está preparada para isso”, desabafa Sônia.

A vendedora Geane Júlio Ferreira, de São Bernardo, também optou por ampliar a família por meio da adoção. Durante quatro anos ela fez tratamento de fertilização, mas sem sucesso. Há dois anos e meio adotou a pequena Gabriela, 2 anos. “Se soubesse que adotar é tão gostoso nem teria tentado o tratamento”, confessa.

Embora a formação da nova família seja um presente tanto para os novos pais como para a criança, muitos casais mantêm a adoção em segredo. É o que confirma a assistente social e administradora do abrigo Lar Escola Pequeno Leão, de São Bernardo, Valéria Giolo Prado. “Porém, falar a verdade para o filho pode evitar conflitos.”

Desde os primeiros dias de vida, Sônia não teme contar a verdade para Rhanieri. Ela não tem medo de que o pequeno conheça a família biológica. “Se ele quiser, serei a primeira a procurar pela genitora.” Se depender de Geane, Gabriela não terá segredos. “Só estou esperando ela crescer mais um pouco para contar.”

ADAPTAÇÃO
Apesar da vontade dos pais, a adoção precisa de adaptação. A assistente social explica que o maior medo de quem adota é a rejeição por parte da criança. Assim, os casais pecam por excesso para agradar a todo custo no período de aclimatação. “Muitos pais criam expectativas e se aborrecem logo no primeiro conflito.” Para Geane, a realização do sonho veio seguida de depressão. “A doença estava encubada e desencadeou com a mudança de rotina. Mas meu maior estímulo para a cura é poder cuidar da minha filha.”

Por ter sido rejeitado ainda no útero, Rhanieri às vezes ignora a figura da mãe. “É como se eu fosse a madrasta e meu marido fosse o pai e a mãe dele”, conta Sônia. “Mas é gratificante aceitá-lo como ele é e saber que foi ele quem me escolheu”, finaliza.

Comportamento detecta risco de devolução

A devolução de crianças e adolescentes pelas famílias que as adotam é uma realidade mais comum do que se pensa. Pesquisa do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) mostra que é possível identificar nos candidatos a pais alguns fatores de risco de devolução.

A autora do estudo, a psicanalista Maria Luiza de Assis Moura Ghirardi, explica: “Alguns têm medo de que os parentes biológicos queiram reaver a criança e outros sentem culpa por achar que tiraram o filho de outra família”. É importante lembrar que o ato de adoção é irrevogável.

Maria Luiza explica que o fato de a criança ter outra origem é um dado que não poderá ser esquecido. “Diante de situação de conflito, um dos pais poderá ficar lembrando disso o tempo todo, como: ‘Eu tirei você de um lugar ruim’, ou ‘Esse seu sangue mau só pode ter vindo da sua família biológica’,” explica.

A especialista também alerta sobre riscos de adoção por parte de pessoas que estão bem economicamente e desejam adotar uma criança pobre com o objetivo de lhe oferecer boas condições de vida. “Muitas vezes esse sentimento de altruísmo esconde frustrações internas profundas e uma baixa auto-estima”, sinaliza.

A psicanalista reitera que o conjunto desses fatores de risco – e não apenas um deles isoladamente – é que vai indicar se existe a possibilidade de uma futura devolução.

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